sábado, 23 de junho de 2012

O angustiante e maravilhoso incômodo do EU

Lays Rodrigues

            "Vês?! Ninguém assistiu ao formidável/ Enterro de tua última quimera./ Somente a ingratidão - esta pantera -/ Foi tua companheira inseparável!". Há cem anos, em 6 de junho de 1912, estes Versos Íntimos e mais 55 poemas eram publicados no Rio de Janeiro naquela que seria a única obra do poeta Augusto dos Anjos, o EU.
            Com a sua poesia, chocante pelo vocabulário agressivo e pela visão angustiante da matéria, da vida e do cosmos, Augusto se tornou uma experiência única na literatura universal, pela união do simbolismo com o cientificismo naturalista, sendo também o precursor do movimento modernista no Brasil.

“Eu filho do carbono e do amoníaco
Monstro da escuridão e rutilância
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância,
Sobe-me à boca uma ânsia análoga a ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco”
(Psicologia de um vencido).

Do engenho Pau D’Arco para o mundo
            Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu em 20 de abril de 1884 no Engenho Pau d’Arco, no atual município de Sapé, na Paraíba. Filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e da dona de casa Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos, que tiveram nove filhos.
            Com o seu pai, Alexandre dos Anjos, aprendeu a ler e teve o seu primeiro contato com as matérias de conhecimentos gerais. Aos dezesseis anos de idade, começou a estudar no Liceu Paraibano, em João Pessoa, local onde mais tarde iria atuar como professor interino de Literatura.
        Em 1903, matriculou-se no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, bacharelando-se em 1907. Neste mesmo período, ingressou no magistério, primeiro como professor particular, depois lecionando para o Instituto Maciel Pinheiro. Ele chegou a colaborar com o jornal Novenar e a publicar anúncios, em que oferecia aulas particulares, nos jornais A União e O Paíz.
            Três anos depois, casado com Esther Fialho, Augusto se demite do Liceu Paraibano para editar seu livro no Rio de Janeiro, onde passa a lecionar em vários estabelecimentos de ensino para sustentar a família. É quando morre o seu primeiro filho, prematuro de sete meses. Em junho de 1912, consegue publicar o EU, com uma edição de mil exemplares, custeados pelo irmão Odilon dos Anjos, por meio de contrato que estipula as condições de ressarcimento.
           Um ano após a publicação de sua obra, nasce o filho Guilherme Augusto Fialho dos Anjos no Rio de Janeiro. Sem superar as dificuldades da vida, sem lugar certo para morar no Rio, resolve aceitar a direção do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira, em Leopoldina, Minas Gerais. Escreve para a família na Paraíba dizendo-se satisfeito com a mudança, mas a situação não dura muito tempo. Em menos de dois anos, o poeta adoece e morre de uma pneumonia em 12 de novembro de 1914, aos 30 anos de idade, em Leopoldina, onde seus restos mortais permanecem.

Um jovem taciturno
            “Um pássaro molhado, todo encolhido em suas asas”, foi assim que o escritor e dramaturgo Órris Soares, amigo e leitor comovido da poesia de Augusto, descreveu o poeta. O escritor via nele um jovem excêntrico e taciturno que já confessava ser “afeito às mágoas e ao tormento” e “com um tropismo ancestral para o infortúnio”.
            Impressiona fortemente este começo de perfil escrito por Órris. “Foi magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida – faces reentrantes, olhos fundos, orelhas violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por contraste do olhar doente de tristura e nos lábios uma crispação de demônio torturado”.
            A escritora e professora Neide Medeiros Santos, que possui pesquisas em Augusto, afirma que o poeta era um filho dedicado aos pais e um professor devotado aos alunos e ao ensino. “Quando o pai adoeceu, o poeta cancelou o curso jurídico por um ano, para ficar ao seu lado. As cartas endereçadas à mãe, Sinhá Mocinha, revelam o profundo amor que sentia por sua mãe. E o mesmo amor que devotava aos pais e aos irmãos dedicava à mulher e ao filho”.
            “Como professor, os depoimentos de seus contemporâneos e ex-alunos revelam um mestre disciplinado e benevolente. Utilizava um método inovador para a época, pedia que os alunos ministrassem aulas, corrigindo as falhas e elucidando os tópicos obscuros, adotando a maiêutica socrática. Modernamente, diríamos que se utilizava de seminários para exercitar os conhecimentos dos alunos”, continua Neide.
        A professora, crítica literária e escritora Ângela Bezerra de Castro ressalta as circunstâncias da época que o poeta viveu. "Augusto viveu um final de século. E, como todo fim de século, foi um período agônico, que estipulou uma mudança de valores. Somado a isso, houve a decadência da sua família, com a morte do pai, e os problemas econômicos decorrentes da crise dos engenhos".

A obra e a crítica
            De acordo com Ângela Bezerra de Castro, a poesia de Augusto deixou os críticos contemporâneos confusos. “Quando o poeta lançou a sua obra, reinavam no Brasil os movimentos parnasianista - que pregava a ‘forma pela forma’ - e simbolista – onde tudo era névoa, sombra e sugestão, e a realidade era escamoteada pela sociedade”, explica.
            Ela continua: “Então, Augusto veio com a realidade da podridão, da pobreza, dos vícios e de todas as visões que eram chocantes e que o público não estava acostumado, muito menos em uma linguagem poética. E trazendo também toda uma visão da ciência do seu tempo, de pensadores como Spencer e Haeckel, em um caldeirão de confluências, onde não existia limite entre as linguagens científica e filosófica e a poesia”. Segundo Ângela, mesmo aqueles críticos que aprovavam a poesia de Augusto dos Anjos e sentiam nela um traço importante, não tinham um instrumental teórico para conseguir compreendê-la. 
           “Augusto foi um caso em que a crítica precisou crescer e se aperfeiçoar para entendê-lo. Depois dos 50 anos da publicação do EU ainda se dizia que o poeta não devia nada a crítica, tanto era confusa. Entretanto, houve nomes que se destacaram como os estudiosos Cavalcante Proença, Chico de Assis Barbosa e Órris Soares”.
           Considera que hoje as edições do EU aparecem com uma diferença qualitativa muito grande em comparação as que eram publicadas há 50 anos. “Não havia, 50 anos atrás, um texto estabelecido da obra, porque as edições iam acumulando erros, que chamamos de ‘gralhas’, que não são erros do poeta e sim de impressão. Além disso, também existiam algumas confusões com relação à data da morte do poeta e de qual doença ele havia morrido. Uns diziam que de tuberculose, quando na verdade ele morreu com uma pneumonia”. Ângela ressalta o fato extraordinário de o EU ter atingido mais de cinquenta edições.

Poesia humana e musical
            Para a professora e crítica, a poesia de Augusto fala da humanidade, e não apenas do poeta como indivíduo particular. “Augusto está sempre tratando de uma grande questão e a desenvolvendo poeticamente. Um exemplo é o soneto ‘Eterna Mágoa’, que daqui a cem anos ou mais poderá ser recitado, porque fala da dor e do sofrimento, temas universais e inerentes ao ser humano”.
            Ângela entende que apesar de o poeta ser precursor do modernismo, mantém uma forma fixa ao longo da construção dos seus poemas. “A poesia de Augusto não tem as ‘amarras’ que o parnasianista teve ao construir os seus sonetos, onde a gente encontra rimas forçadas. A poesia dele flui porque tem, sobretudo, um grande ritmo e uma grande musicalidade”.
        Constata que o poeta tinha a habilidade de trabalhar em seus versos aquilo que realmente é literário. “Literatura é quando a carne da palavra sustenta uma ideia. E Augusto era mestre nisso, pois utilizava todos os recursos, de metáforas a recursos visuais. Ele tem três sonetos ao pai, e um deles eu considero o mais bonito, que é A meu pai doente, em que toda a dor e solidariedade ao pai são ditas no nível do conteúdo e da forma”.
            “Uma marca de Augusto é o uso do paralelismo. Em A meu pai doente ele repete a mesma ideia, que seria visual, apenas trocando de lugar as palavras: ‘Tu, para amenizar as dores tuas, eu, para amenizar as minhas...’. E ainda no mesmo soneto, o poeta usa uma conjunção aditiva repetidamente e uma figura de linguagem chamada polissíndeto, que vão representando o crescer da dor do poeta, que a esta altura já é imensa: ‘E eu tão sem crença e as árvores tão nuas/ E tu , gemendo, e o horror de nossas duas...’” nota Ângela.
            Ela prossegue: “O verso invertido ‘de assim magoar-te sem pesar havia’ também demonstra toda a confusão de espírito que estava dentro do poeta ao construir o poema. No último terceto ‘Seria a mão de Deus?!’, Augusto questiona a existência de Deus e o cristianismo. E ao repetir o nome de Deus é como se ele estivesse chamando por Deus e perdido diante dele, querendo uma resposta divina”.

O real fantástico
         Ângela compara alguns dos sonetos do poeta ao realismo fantástico de que os escritores Gabriel Garcia Márquez e José Saramago são expoentes. “Ao lermos um poema como Queixas noturnas vemos que só o modernismo poderia traçar uma imagem como essa, em que o real e o imaginário integram o mesmo plano. Esse recurso pode se comparar ao realismo maravilhoso, em que o cerne é destruir o limite entre real palpável e o real do outro ‘mundo’, que é a morte.”

Crítica chocante e expressionista
            Em alguns sonetos de Augusto também é possível constatar versos de uma crítica feroz e chocante. Ângela cita os poemas Gemidos de Arte e Os doentes. “A poesia de Augusto está sempre com uma linguagem que expressa a realidade como ela é, difícil de ser enfrentada. Nos versos ‘E o olho do estuprador se encha de bichos!’, no primeiro poema, ele critica o estuprador, e em ‘Manchou de opróbrios a alma do mazombo/ Cuspiu na cova do morubixaba!’, no segundo, o poeta ataca os colonizadores”. Esses traços chocantes que Augusto se apodera em sua poesia foram vistos, na década de 70, pelo crítico Anatol Rosenfeld, como uma aproximação do expressionismo alemão. “O gosto pela deformação, a visão subjetiva, forte, que não é a cópia fotográfica, mas a cópia de uma expressão, tudo isso contribuiu para que Augusto fosse comparado ao movimento da pintura alemão”, explica Ângela.

Gosto popular
            Apesar dos termos científicos e filosóficos utilizados na obra de Augusto, a sua poesia abre perspectiva para um gosto puramente popular. É o que explica Ângela Bezerra de Castro. “Augusto tem poemas que são os mais populares, que todo mundo sabe recitar. E ele se utiliza de elementos cotidianos, banais. Um exemplo é o verso Toma um fósforo. Acende teu cigarro, do poema Versos Íntimos, que é recitado por qualquer pessoa, seja ela crítica ou não. Essa mesma poesia, que traz os versos O beijo, amigo, é a véspera do escarro/ A mão que afaga é a mesma que apedreja também traz toda uma formulação de um ditado popular que é ‘as aparecias enganam’”, diz.

Culpa e melancolia
            As frequentes referências ao sentimento de culpa, que aparecem de forma intensa e generalizada na obra do poeta, sempre impressionaram o professor Chico Viana. “Ele se expressava de modo que o poeta sozinho fosse o responsável por um crime universal e devesse, por isso, pagar pelos pecados de toda a espécie”, explica.
        De acordo com Chico, que teve Augusto como objeto de sua tese de Doutorado, defendida em dezembro de 1992 na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a obra do paraibano “dissemina uma melancolia profunda, com um sentimento de uma perda essencial, de um luto persistente e definitivo que precipita o indivíduo, a natureza, o cosmo numa espécie de abismo negro que suprime toda alegria”.
            Ele esclarece que a sombra que sempre aparece nos sonetos de Augusto não é senão ‘o rosto escuro de Narciso’, a contraface de desespero que não permite ao contemplador ver a si mesmo. “Essa sombra, que ele se dizia perseguido, espécie de negativo que a ele se antepunha e lhe tomava o lugar, é o alterego tristonho do poeta, que fala no poema inaugural e em muitos outros do livro”.
            Chico destaca que Augusto dos Anjos é um poeta que deve ser sempre estudado e analisado. “Augusto deve ser lido por diversos prismas, cada um deles iluminando um ângulo novo da sua obra romântica, barroca, simbolista e, ao mesmo tempo, moderna. Seus versos falam de temores e anseios cruciais no ser humano, cujo maior desafio é conciliar a porção animal com a aspiração de se elevar a espaços transcendentes”.
            Ele entende que o poeta não chega a uma síntese. “Mesmo porque, não sendo um místico nem um filósofo, ele não tem essa função. A linguagem é sua matéria e seu horizonte. Seus poemas são, basicamente, um testemunho do poder regenerador da arte. Só ela, conforme escreve o poeta em Monólogo de uma Sombra, é capaz de ‘esculpir’ a dor humana e transformar em planície amena a aspereza orográfica do mundo”.

A crença em um mundo melhor
            Para o escritor, professor, membro do Caixa Baixa - grupo de jovens escritores paraibanos – Jairo Cézar Soares, a poesia de Augusto dos Anjos não tem nada de cientificista, ou puramente mórbida e pessimista. “Há muito mais, nessa estupenda obra do que a morte. Digo que a poesia anjosiana é constatativa, descrente no homem atual, mas crente em um novo homem, em um novo cosmo. Não sendo um discurso aporético, mas, de certa forma, otimista em um novo mundo”. 
            Jairo vai além: “Para mim, não existe poesia cientificista. O que Augusto fez foi usar termos científicos ao lado de termos ordinários, cotidianos. Augusto é um poeta do cotidiano. Ferreira Gullar afirma que Augusto recusou alturas e preferiu descer ao subterrâneo. No lugar de pombas e garças, ele usou elementos como sapo, urubu e lagartixa”.
             “Observa-se, nesse trecho final de Os Doentes, que o vate vislumbra uma luz no fim do túnel. Uma esperança em um mundo melhor, um cosmo novo. Isso é pessimismo? Eu não acho. Há sim um desconforto com as mudanças que vieram com o século XX. Século que é considerado o que quebrou mais paradigmas. E Augusto era testemunha desse caos, não apenas no seu Engenho, mas universal. Ele era descrente porque o seu mundo estava desmoronando”, explica Jairo.

Augusto: uma leitura que nunca termina
            Gonzaga Rodrigues, jornalista há anos dedicado à crônica, é um leitor de Augusto desde que o EU lhe caiu às mãos, no vazio escolar de 1950, deixado o colégio. “Comecei a ler nesse momento ainda sem rumo, de luto do meu pai, e nunca terminei de ler, desde o Monólogo de uma sombra ao Último número recolhido na edição de Órris Soares. É uma leitura de mais de sessenta anos que nunca termina”, ressalta.
            “Não como leitura de Breviário – explica Gonzaga - dos antigos padres, ou mesmo da Bíblia de todos os homens, em busca de ensinamentos de vida e de salvação da alma. Mas por compulsão estética, a única a meu sentir, que me liga à sobrenaturalidade”, recorda, muito compenetrado, esse leitor cativo.
           Estende-se mais, como se falasse sozinho: “A estética aí mencionada é o outro reino, a salvação alcançada ainda em vida com o ingresso do nosso “eu”, o “eu” de cada leitor, na transcendência da poesia. Da arte. A arte que nos coloca na mesma mesa e no mesmo ponteiro de relógio com Homero, o primeiro das referências civilizatórias do Ocidente, tão imaterial que há dúvidas se ele precisou nascer. A suprema arte dispensou-o dessa condição mortal que começa pelo nascimento”. 
           É com esse pensamento, com essa abertura, que o presidente da Academia Paraibana de Letras (APL) enquadra Augusto dos Anjos na galeria intemporal dos clássicos. “Como acontece com os grandes autores, os que se tornam clássicos, perdeu-se a conta das edições do EU. Numa das linhas editoriais, centrada no Rio de Janeiro, a partir da edição ‘princeps’ o livrinho de 1912 alcança a 48ª edição, através da Martins Fontes. Noutra linha, a José Olympio, com o estudo de Ferreira Gullar e sob outro título, Toda a poesia de Augusto dos Anjos imprime a 3ª”.
            Ele continua: “A nossa própria Universidade edita o EU com a indicação de 3ª. edição. Circularam e circulam outras versões no Brasil inteiro sem vínculo a qualquer ordem ou sequência editorial. Significa dizer, portanto, que a demanda indistinta, diversificada, culta ou popular pela poesia de Augusto inviabiliza o registro regular do número de edições. Muita coisa fora do índice catalográfico a que todo livro está obrigado”.
          Gonzaga anuncia, então, a lembrança da Academia Paraibana de Letras de incorporar-se aos 100 anos do EU recompondo o Memorial de Augusto dos Anjos, da APL, com apoio da Secretaria Estadual de Educação e Cultura, em convênio renovado pelo secretário Harrison Targino, além da reedição do EU de 1920, organizada por Órris Soares, num momento em que havia se esgotado a 1ª edição e a crítica literária mantinha-se confusa, como diz Ângela Bezerra de Castro, espantada com o poeta, conforme a reação do acadêmico Medeiros de Albuquerque.
            “A reedição do EU de 1920 é uma homenagem a Órris, senhor da iniciativa, organizador da edição que soube respeitar a vontade do poeta ao selecionar os versos segundo os seus padrões estéticos. São 56 poesias, às quais Órris acrescentou as produzidas entre 1912 a 1914, com alguns sonetos deixados nos jornais da Paraíba que não desmereciam os critérios do autor”, explica.

Matéria publicada no Correio das Artes.

Nenhum comentário: