sábado, 23 de junho de 2012

Neide Medeiros e o fascínio pelas palavras

Lays Rodrigues

            “Um livro é um brinquedo feito com letras”. A máxima, do escritor, educador, teólogo e psicanalista Rubem Alves, nunca foi tão verdadeira. Aos oito anos, uma garota nascida no interior do Rio Grande do Norte, na cidade de Jardim do Seridó, abandonava bonecas e brincadeiras de “casinha” para se dedicar a uma atividade que viraria uma paixão para a vida inteira: a leitura. Despertada pelas histórias contadas tanto pela mãe como por uma moça que trabalhava na casa do seu tio, a menina fugia todas as noites para a casa de tio Pedro para se deliciar com histórias contadas por Chicuta.  Dessa fase, adveio o gosto pela literatura de cordel, pelos contos populares.
            Ainda na infância, migrando do Rio Grande do Norte para Campina Grande, na Paraíba, ela descobriu um lugar, onde o grande número acessível de histórias aumentava a sua pretensão de domar as letrinhas, a biblioteca pública de Campina, local aonde ia várias vezes por semana. Como toda criança, que sonha em tornar-se adulta para escolher uma profissão, ela, que lia tantas biografias de escritores formados em Direito, achava que deveria entrar no universo jurídico para tornar-se escritora.  Folheando livros e imaginando o desfecho das histórias, ela foi traçando o seu próprio destino, e descobriu que a sua vocação não era o Direito, e sim formar-se em Letras.
            Hoje narrando a sua trajetória, a escritora, crítica literária e professora aposentada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Neide Medeiros Santos, que atualmente mora em João Pessoa, tem uma biblioteca recheada de livros infantis em sua casa. Essa paixão, ela revela, começou em 1982, quando passou a ensinar a disciplina de Literatura Infantil no curso de Letras da UFPB. “Entre debates em sala de aula com alunos e resenhas literárias publicadas em jornais, eu me dei conta que possuía muita afinidade com a literatura infanto-juvenil e o meu objetivo a partir daquele momento foi me dedicar exclusivamente aos livros infantis”, conta.
      Neide é graduada em Letras pela Universidade Regional do Nordeste, atual Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutora em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ela é membro votante da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), secretária geral da Academia de Letras e Artes do Nordeste e pertence à Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba e à União Brasileira de Escritores (UBE).
           Ela já escreveu resenhas literárias para o jornal “O Popular”, de Goiás, o suplemento literário “Panorama Literário”, do Diário de Pernambuco, para o periódico “Correinho das Artes”, revista “Verdes Anos” e o jornal O Norte, da Paraíba, contribuindo inclusive para o suplemento Correio das Artes, onde escreve, de forma periódica, da década de 80 até hoje. Além disso, mantém, atualmente, uma coluna literária no jornal Contraponto e escreve para o seu blog na internet “Nas trilhas da literatura”.
            Com uma linguagem clara, proveniente das suas experiências nos jornais, ela já escreveu quatro livros, e foi co-autora de sete. O primeiro, “A hora e a vez da literatura infantil”, publicado em 2000 pela editora Outras Palavras do Recife, reúne dez textos teóricos de análise dos livros infanto-juvenis brasileiros. “Foi o primeiro, por isso, tenho um carinho especial por ele. Eu já tinha redigido textos para vários jornais, mas nunca tinha escrito um livro. Então, quando o vi pronto e percebi que o meu trabalho estava sendo reconhecido foi uma gratificação muito grande”, revela.
            O segundo livro, lançado em 2005, “Guriatã: uma viagem mítica ao ‘país paraíso’”, pela editora Ideia de João Pessoa, foi inicialmente uma tese de doutorado, defendida na UNESP em 1999. “Foi um trabalho de pesquisa bastante extenso, que durou cinco anos, tive que transformar a linguagem científica da tese em uma linguagem mais clara, que atraísse o leitor”, diz Neide. A publicação é um trilhar pela poesia de Marcus Accioly, com ênfase para a presença dos mitos eruditos e populares presentes no livro “Guriatã: um cordel para menino”.
            Em 2007, possuindo forte admiração pela poesia e pela história de vida da poeta e psicóloga paraibana Violeta Formiga, Neide publica “Violeta Formiga: 25 anos de encantamento”, pela Editora Universitária da UFPB. “Quando professora de Teoria da Literatura, eu sempre utilizava os poemas de Violeta para análise, fazia comentários durante as aulas e gostava muito da sua poesia. Então, após ler materiais sobre ela e opiniões de poetas e jornalistas registradas em jornais, tracei um relato biográfico para homenageá-la e melhor compreender a sua dimensão poética”, explica. Violeta também é patrona de Neide na Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba, ocupando a cadeira 40.
            “Livros à espera do leitor”, fruto de uma seleção de textos publicados entre os anos de 2007 e 2009 no jornal O Norte, realizado com o apoio da editora Zarinha Centro de Cultura em 2009, é, nas palavras do jornalista William Costa, “um mapa precioso para quem deseja desbravar o vasto território da literatura infantil brasileira”. O livro é dividido em cinco blocos - Criança, Jovem, Teórico, Ilustração e Poesia -, trazendo resenhas de livros enviados por editoras, por meio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. “Foi uma seleção difícil, porque O Norte foi o primeiro jornal que eu passei a publicar resenhas semanalmente, nos outros periódicos, a publicação era esporádica. Então foram muitos textos para analisar, até chegar a compilação de 35 para compor o livro”, conta.

Trabalhos de co-autoria
            Reunindo artigos de quinze escritoras paraibanas sobre leituras que marcaram a sua infância e adolescência, Neide Medeiros Santos e a escritora e professora Yó Limeira lançam em 2006 o livro “Memórias rendilhadas: vozes femininas”, pela Editora Universitária da UFPB.  A coletânea tem a participação de, entre outras escritoras, Mila Cerqueira, Cristina Guedes, Lourdinha Luna, Emília Guerra, Marília Arnaud, Vitória Lima, Petra Ramalho e as próprias organizadoras, Neide e Yó, sendo lembrados nomes como Victor Hugo, Balzac, José Lins do Rêgo e Cervantes. 
            Cinco anos depois, a parceria entre as duas escritoras é retomada com a publicação de “Confesso que li”. Dessa vez compilando relatos de 34 escritores e jornalistas paraibanos, como José Octavio de Arruda e Melo, Magno Nicolau, William Costa, Fernando Moura, Hildeberto Barbosa Filho, W.J Solha, Jomar Morais Souto, Chico Viana, Hermano José e Carlos Pereira, sobre leituras feitas na infância. O título do livro é uma paráfrase do livro de memórias “Confesso que vivi” do poeta chileno Pablo Neruda.
          Fascinada pela obra do poeta Augusto dos Anjos, Neide ingressa em 2007 nos projetos de pesquisa “Reconstituição do Universo de Augusto dos Anjos” e “Redescobrindo as trilhas de Augusto dos Anjos”, ambos aprovados no Fundo de Incentivo à Cultura (FIC), do Governo da Paraíba. As pesquisas, que também contaram com a participação da professora Maria do Socorro Aragão e da arquivista e bibliotecária Ana Isabel de Souza Leão Andrade, tiveram como fonte familiares e amigos do poeta, bibliografias, cópias de cartas de Augusto para sua mãe e textos publicados no jornal “Nonevar”, que circulava no início do século XX na Paraíba.
            Os dois projetos resultaram na publicação de cinco livros, pela Editora Ideia. São eles: “Memorial Augusto dos Anjos: Uma visita guiada” (2008), “Memorial Augusto dos Anjos: Um roteiro cultural e poético” (2008), “Augusto dos Anjos: Uma biobibliografia” (2008), “Conversando sobre Augusto dos Anjos: Uma história oral” (2009) e “Augusto dos Anjos em imagens: Uma fotobiografia” (2010). Neste último, são encontrados poemas manuscritos e fotografias de locais onde o poeta morou, estudou e trabalhou, como o Grupo Escolar Ribeiro Junqueira, em Leopoldina, Minas Gerais, o Liceu Paraibano, em João Pessoa, a Faculdade de Direito do Recife, a casa-grande do engenho Pau d’Arco e a capelinha do Senhor do Bonfim.
          “Na medida em que fomos nos envolvendo com as pesquisas, criamos uma fascinação cada vez maior pela poesia de Augusto dos Anjos. Vimos, inclusive, outras facetas da vida do poeta. Por exemplo, percebemos que o seu trabalho não retratava o homem Augusto. Ele não era simplesmente o poeta da dor e da melancolia, ele era um homem comum, que tinha momentos de alegria e de humor, como qualquer outra pessoa. Além disso, como eu, Augusto também era professor e gostava de poesia, aumentando a minha admiração e identificação com ele”, explica Neide.

FNLIJ
            A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) foi criada em 1968 por um grupo de educadoras, Laura Sandroni (jornalista e crítica de literatura infantil), Ruth Vilela (bibliotecária) e Maria Luíza Barbosa (técnica em assuntos educacionais). A organização, que tem o objetivo de divulgar a boa literatura produzida no Brasil para crianças e jovens e funciona sem possuir fins lucrativos, publica a relação dos melhores livros produzidos no Brasil para o público infanto-juvenil e atribui prêmios, organizando feiras de livros, salões, seminários, congressos e encontros literários.
        No Brasil, existem 30 membros votantes da FNLIJ, destes apenas dois estão no Nordeste, a escritora Tereza Bonfim, no Maranhão, e Neide Medeiros Santos, representando a Paraíba. Todos os anos, os integrantes recebem em sua casa livros infanto-juvenis de várias editoras, por meio da Fundação. Primeiro, eles têm o papel de lê-los para julgar se os livros são bons ou não, selecionando aqueles que devem receber o selo de Altamente Recomendável (AR). Depois, recebem novamente uma lista enviada pela FNLIJ de todos os livros que ganharam o selo “AR” dos membros votantes para selecionar a melhor publicação de cada categoria.
            Dentre as categorias, estão Criança, Jovem, Imagem, Informativo, Hors Concours, Informativo, Poesia, Livro Brinquedo, Teatro, Teórico, Reconto, Literatura em Língua Portuguesa, Tradução/Adaptação Criança, Tradução/Adaptação Jovem, Escritor Revelação, Ilustrador Revelação, Melhor Ilustração e Melhor Projeto Editorial. Os autores ou ilustradores dos livros mais votados pelos integrantes da FNLIJ são premiados durante a festa do Salão do Livro, que acontece anualmente no Rio de Janeiro. De acordo com Neide, a premiação deste ano vai ser realizada em 23 de maio. “Eles já me convidaram para participar”, diz ela, entusiasmada.
        São presentes enviados pela Fundação boa parte dos livros que preenchem a biblioteca de Neide, em sua casa. Ela foi convidada para ser membro da organização em 2001, período em que morava no Recife, em Pernambuco. Mas em 2003, vindo morar em João Pessoa, ela pediu transferência, e desde então representa a Paraíba na Fundação. A escritora revela que já publicou muitas resenhas de livros que ganharam prêmios pela FNLIJ nos jornais O Norte e Contraponto. “Algumas vezes, antes mesmo de eles serem premiados, eu escrevo textos elogiando-os”, comenta.
            Neide destaca a importância da premiação realizada pela FNLIJ. “É um dos maiores concursos que acontecem no Brasil em termos de literatura infanto-juvenil. Temos, por exemplo, o prêmio Jabuti, que é um grande concurso literário, mas contempla várias categorias, como o romance, a história e os livros teóricos. Então, o prêmio da FNLIJ não só valoriza a produção desse tipo de literatura como revela novos talentos na área”. Ela acrescenta também que sente prazer em ler, julgar e selecionar os livros do gênero. “É um trabalho gratificante”.

O apego pelos livros infantis
            Neide Medeiros Santos não vê distinção entre a literatura feita para adultos e a literatura infanto-juvenil. “Todas elas têm a obrigação de ser boas. Principalmente a infantil, pois forma leitores”. Ela também não esconde a sua admiração pela feita pelos escritores brasileiros. “A literatura infanto-juvenil do Brasil, eu digo sem medo de errar, é uma das melhores do mundo. E isso nós podemos provar. Temos duas escritoras brasileiras que ganharam o prêmio Andersen de Literatura Infantil, que é equivalente ao Nobel. São elas: Lígia Bojunga Nunes e Ana Maria Machado”.
            Ela explica o que todo livro infantil deve ter. “Uma linguagem acessível, mas não facilitada com o uso de diminutivos e de histórias bobinhas. Hoje nós encontramos autores brasileiros de literatura infantil que tratam de temas universais, como a preservação do meio ambiente e o compromisso com o social. Livros estes que causam prazer e fruição em nós, leitores”, diz. A escritora, crítica literária e professora aposentada pela UFPB também revela “todos os livros que li e resenhei foram leituras lidas e vividas, que me ‘tocaram’ e me agradaram muito. A literatura está na minha alma e marca a minha trajetória de vida”.

Mandala de Livros
            “A fada que tinha ideias”, da escritora Fernanda Lopes de Almeida, é um dos livros preferidos de Neide. A obra conta a história de uma fadinha, chamada Clara Luz, que tem aulas com uma professora de horizontologia, disciplina cujo papel é “abrir horizontes” e ajudar Clara a descobrir o mundo. Neide talvez não saiba, mas assim como a professora de Clara Luz, também “abre horizontes” para inúmeras crianças paraibanas, por meio do seu projeto Mandala de Livros.
            Desde 2008, ela doa anualmente cerca de mil livros para bibliotecas de escolas públicas da Paraíba. “São obras mandadas pela FNLIJ, que depois de lidas e analisadas, eu faço uma seleção e saio distribuindo para vários municípios do Estado”, explica, acrescentando: “além de doar, às vezes faço palestras e converso com os alunos sobre a literatura infantil e os incentivo para a prática da leitura”. Neide lembra com alegria, de uma doação que fez há quatro anos no município de Cabaceiras, no Cariri do Estado. “Doei 600 livros para uma escola da região, que sequer tinha biblioteca, e eles criaram uma sala de leitura”.

O perfil
            Neide se descreve como uma pessoa tranquila, mas que ao ver alguém sendo injustiçado ou humilhado, sabe se impor e lutar pelo o que acha que é certo. Realizando um passeio rápido pela sua casa, descobrimos que as mesmas mãos que escrevem também sabem pintar quadros de janelas e portas de várias partes do mundo. “Telas que pinto com a ajuda do professor Miguel Bertollo”, explica. No tempo livre, ela diz que, além de ler livros, gosta de ouvir músicas clássica e popular. “Chico, Caetano...”, enumera.
            Ela revela ter uma grande admiração pelo escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós. “É a minha grande paixão literária e eu me identifico muito com ele. Eu gosto de poesia, ele também. Eu gosto de pássaros, ele também”, conta, sorrindo. “Seus livros são muito sensíveis”, acrescenta. “Paraibana de coração”, como também se descreve, ela mostra que também sabe reconhecer o valor do que é produzido no Estado. “A Paraíba tem excelentes escritores, poetas, jornalistas e cronistas que precisam ser mais valorizados nacionalmente. Por isso, quando tenho oportunidade ressalto o valor deles em meus livros e resenhas”.
            Questionada sobre o que a deixa feliz, responde de prontidão: “minha família, os meus amigos e o fato de ter o meu trabalho reconhecido, quando estou distribuindo livros para crianças carentes, são coisas que me deixam muito contente e entusiasmada com a vida”. Sobre ter projetos literários, o espírito de menina encantada pela brincadeira da escrita diz: “Quem escreve sempre está pensando em escrever alguma coisa, não é?”.

Matéria publicada no Correio das Artes.

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