“Um livro é um brinquedo feito com letras”. A
máxima, do escritor, educador, teólogo e psicanalista Rubem Alves, nunca foi
tão verdadeira. Aos oito anos, uma garota nascida no interior do Rio Grande do
Norte, na cidade de Jardim do Seridó, abandonava bonecas e brincadeiras de
“casinha” para se dedicar a uma atividade que viraria uma paixão para a vida
inteira: a leitura. Despertada pelas histórias contadas tanto pela mãe como por
uma moça que trabalhava na casa do seu tio, a menina fugia todas as noites para
a casa de tio Pedro para se deliciar com histórias contadas por Chicuta. Dessa fase, adveio o gosto pela literatura de
cordel, pelos contos populares.
Ainda
na infância, migrando do Rio Grande do Norte para Campina Grande, na Paraíba,
ela descobriu um lugar, onde o grande número acessível de histórias aumentava a
sua pretensão de domar as letrinhas, a biblioteca pública de Campina, local
aonde ia várias vezes por semana. Como toda criança, que sonha em tornar-se
adulta para escolher uma profissão, ela, que lia tantas biografias de escritores
formados em Direito, achava que deveria entrar no universo jurídico para
tornar-se escritora. Folheando livros e
imaginando o desfecho das histórias, ela foi traçando o seu próprio destino, e
descobriu que a sua vocação não era o Direito, e sim formar-se em Letras.
Hoje
narrando a sua trajetória, a escritora, crítica literária e professora
aposentada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Neide Medeiros Santos,
que atualmente mora em João Pessoa, tem uma biblioteca recheada de livros
infantis em sua casa. Essa paixão, ela revela, começou em 1982, quando passou a
ensinar a disciplina de Literatura Infantil no curso de Letras da UFPB. “Entre
debates em sala de aula com alunos e resenhas literárias publicadas em jornais,
eu me dei conta que possuía muita afinidade com a literatura infanto-juvenil e
o meu objetivo a partir daquele momento foi me dedicar exclusivamente aos
livros infantis”, conta.
Neide é graduada em Letras pela Universidade
Regional do Nordeste, atual Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), mestre em
Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutora
em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ela é membro
votante da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), secretária
geral da Academia de Letras e Artes do Nordeste e pertence à Academia Feminina
de Letras e Artes da Paraíba e à União Brasileira de Escritores (UBE).
Ela
já escreveu resenhas literárias para o jornal “O Popular”, de
Goiás, o suplemento literário “Panorama Literário”, do Diário de Pernambuco,
para o periódico “Correinho das Artes”, revista “Verdes Anos” e o jornal O
Norte, da Paraíba, contribuindo inclusive para o suplemento Correio das Artes,
onde escreve, de forma periódica, da década de 80 até hoje. Além disso, mantém,
atualmente, uma coluna literária no jornal Contraponto e escreve para o seu
blog na internet “Nas trilhas da literatura”.
Com uma linguagem clara, proveniente das suas
experiências nos jornais, ela já escreveu quatro livros, e foi co-autora de
sete. O primeiro, “A hora e a vez da literatura infantil”, publicado em 2000
pela editora Outras Palavras do Recife, reúne dez textos teóricos de análise
dos livros infanto-juvenis brasileiros. “Foi o primeiro, por isso, tenho um
carinho especial por ele. Eu já tinha redigido textos para vários jornais, mas
nunca tinha escrito um livro. Então, quando o vi pronto e percebi que o meu trabalho
estava sendo reconhecido foi uma gratificação muito grande”, revela.
O segundo livro, lançado em 2005, “Guriatã: uma viagem
mítica ao ‘país paraíso’”, pela editora Ideia de João Pessoa, foi inicialmente
uma tese de doutorado, defendida na UNESP em 1999. “Foi um trabalho de pesquisa
bastante extenso, que durou cinco anos, tive que transformar a linguagem
científica da tese em uma linguagem mais clara, que atraísse o leitor”, diz
Neide. A publicação é um trilhar pela poesia de Marcus Accioly, com
ênfase para a presença dos mitos eruditos e populares presentes no livro “Guriatã:
um cordel para menino”.
Em 2007, possuindo forte admiração pela poesia e pela
história de vida da poeta e psicóloga paraibana Violeta Formiga, Neide publica
“Violeta Formiga: 25 anos de encantamento”, pela Editora Universitária da UFPB.
“Quando professora de Teoria da Literatura, eu sempre utilizava os poemas de
Violeta para análise, fazia comentários durante as aulas e gostava muito da sua
poesia. Então, após ler materiais sobre ela e opiniões de poetas e jornalistas
registradas em jornais, tracei um relato biográfico para homenageá-la e melhor
compreender a sua dimensão poética”, explica. Violeta também é patrona de Neide
na Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba, ocupando a cadeira 40.
“Livros à espera do leitor”, fruto de uma seleção de
textos publicados entre os anos de 2007 e 2009 no jornal O Norte, realizado com
o apoio da editora Zarinha Centro de Cultura em 2009, é, nas palavras do
jornalista William Costa, “um mapa precioso para quem deseja desbravar o vasto território da
literatura infantil brasileira”. O livro é dividido em cinco blocos - Criança,
Jovem, Teórico, Ilustração e Poesia -, trazendo resenhas de livros enviados por
editoras, por meio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. “Foi uma seleção
difícil, porque O Norte foi o primeiro jornal que eu passei a publicar resenhas
semanalmente, nos outros periódicos, a publicação era esporádica. Então foram
muitos textos para analisar, até chegar a compilação de 35 para compor o
livro”, conta.
Trabalhos de co-autoria
Reunindo
artigos de quinze escritoras paraibanas sobre leituras que marcaram a sua
infância e adolescência, Neide Medeiros Santos e a escritora e professora Yó
Limeira lançam em 2006 o livro “Memórias rendilhadas: vozes femininas”, pela Editora
Universitária da UFPB. A coletânea tem a
participação de, entre outras escritoras, Mila Cerqueira, Cristina Guedes,
Lourdinha Luna, Emília Guerra, Marília Arnaud, Vitória Lima, Petra Ramalho e as
próprias organizadoras, Neide e Yó, sendo lembrados nomes como Victor Hugo,
Balzac, José Lins do Rêgo e Cervantes.
Cinco
anos depois, a parceria entre as duas escritoras é retomada com a publicação de “Confesso que li”. Dessa vez
compilando relatos de 34 escritores e jornalistas paraibanos, como José Octavio
de Arruda e Melo, Magno Nicolau, William Costa, Fernando Moura, Hildeberto
Barbosa Filho, W.J Solha, Jomar Morais Souto, Chico Viana, Hermano José e
Carlos Pereira, sobre leituras feitas na infância. O título do livro é uma
paráfrase do livro de memórias “Confesso que vivi” do poeta chileno Pablo
Neruda.
Fascinada pela obra do
poeta Augusto dos Anjos, Neide ingressa em 2007 nos projetos de pesquisa “Reconstituição
do Universo de Augusto dos Anjos” e “Redescobrindo as trilhas de Augusto dos
Anjos”, ambos aprovados no Fundo de Incentivo à Cultura (FIC), do Governo da Paraíba.
As pesquisas, que também contaram com a participação da professora Maria do
Socorro Aragão e da arquivista e bibliotecária Ana Isabel de Souza Leão Andrade,
tiveram como fonte familiares e amigos do poeta, bibliografias, cópias de
cartas de Augusto para sua mãe e textos publicados no jornal “Nonevar”, que
circulava no início do século XX na Paraíba.
Os
dois projetos resultaram na publicação de cinco livros, pela Editora Ideia. São
eles: “Memorial
Augusto dos Anjos: Uma visita guiada” (2008), “Memorial Augusto dos Anjos: Um
roteiro cultural e poético” (2008), “Augusto dos Anjos: Uma biobibliografia”
(2008), “Conversando sobre Augusto dos Anjos: Uma história oral” (2009) e “Augusto
dos Anjos em imagens: Uma fotobiografia” (2010). Neste último, são encontrados
poemas manuscritos e fotografias de locais onde o poeta morou, estudou e
trabalhou, como o Grupo Escolar Ribeiro Junqueira, em Leopoldina, Minas Gerais,
o Liceu Paraibano, em João Pessoa, a Faculdade de Direito do Recife, a
casa-grande do engenho Pau d’Arco e a capelinha do Senhor do Bonfim.
“Na medida em que fomos nos
envolvendo com as pesquisas, criamos uma fascinação cada vez maior pela poesia
de Augusto dos Anjos. Vimos, inclusive, outras facetas da vida do poeta. Por
exemplo, percebemos que o seu trabalho não retratava o homem Augusto. Ele não
era simplesmente o poeta da dor e da melancolia, ele era um homem comum, que
tinha momentos de alegria e de humor, como qualquer outra pessoa. Além disso,
como eu, Augusto também era professor e gostava de poesia, aumentando a minha
admiração e identificação com ele”, explica Neide.
FNLIJ
A Fundação
Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) foi criada em 1968 por um grupo de
educadoras, Laura Sandroni (jornalista e crítica de literatura infantil), Ruth
Vilela (bibliotecária) e Maria Luíza Barbosa (técnica em assuntos educacionais).
A organização, que tem o objetivo de divulgar a boa literatura produzida no
Brasil para crianças e jovens e funciona sem possuir fins lucrativos, publica a
relação dos melhores livros produzidos no Brasil para o público infanto-juvenil
e atribui prêmios, organizando feiras de livros, salões, seminários, congressos
e encontros literários.
No Brasil,
existem 30 membros votantes da FNLIJ, destes apenas dois estão no Nordeste, a
escritora Tereza Bonfim, no Maranhão, e Neide Medeiros Santos, representando a
Paraíba. Todos os anos, os integrantes recebem em sua casa livros infanto-juvenis
de várias editoras, por meio da Fundação. Primeiro, eles têm o papel de lê-los
para julgar se os livros são bons ou não, selecionando aqueles que devem
receber o selo de Altamente Recomendável (AR). Depois, recebem novamente uma
lista enviada pela FNLIJ de todos os livros que ganharam o selo “AR” dos
membros votantes para selecionar a melhor publicação de cada categoria.
Dentre as categorias, estão Criança, Jovem, Imagem,
Informativo, Hors Concours, Informativo, Poesia, Livro Brinquedo, Teatro,
Teórico, Reconto, Literatura em Língua Portuguesa, Tradução/Adaptação Criança,
Tradução/Adaptação Jovem, Escritor Revelação, Ilustrador Revelação, Melhor
Ilustração e Melhor Projeto Editorial. Os autores ou ilustradores dos livros
mais votados pelos integrantes da FNLIJ são premiados durante a festa do Salão
do Livro, que acontece anualmente no Rio de Janeiro. De acordo com Neide, a
premiação deste ano vai ser realizada em 23 de maio. “Eles já me convidaram
para participar”, diz ela, entusiasmada.
São
presentes enviados pela Fundação boa parte dos livros que preenchem a
biblioteca de Neide, em sua casa. Ela foi convidada para ser membro da
organização em 2001, período em que morava no Recife, em Pernambuco. Mas em
2003, vindo morar em João Pessoa, ela pediu transferência, e desde então
representa a Paraíba na Fundação. A escritora revela que já publicou muitas
resenhas de livros que ganharam prêmios pela FNLIJ nos jornais O Norte e Contraponto.
“Algumas vezes, antes mesmo de eles serem premiados, eu escrevo textos
elogiando-os”, comenta.
Neide
destaca a importância da premiação realizada pela FNLIJ. “É um dos maiores
concursos que acontecem no Brasil em termos de literatura infanto-juvenil. Temos,
por exemplo, o prêmio Jabuti, que é um grande concurso literário, mas contempla
várias categorias, como o romance, a história e os livros teóricos. Então, o
prêmio da FNLIJ não só valoriza a produção desse tipo de literatura como revela
novos talentos na área”. Ela acrescenta também que sente prazer em ler, julgar
e selecionar os livros do gênero. “É um trabalho gratificante”.
O apego pelos livros
infantis
Neide Medeiros Santos não vê distinção entre a
literatura feita para adultos e a literatura infanto-juvenil. “Todas elas têm a
obrigação de ser boas. Principalmente a infantil, pois forma leitores”. Ela
também não esconde a sua admiração pela feita pelos escritores brasileiros. “A literatura infanto-juvenil do Brasil, eu digo sem
medo de errar, é uma das melhores do mundo. E isso nós podemos provar. Temos
duas escritoras brasileiras que ganharam o prêmio Andersen de Literatura
Infantil, que é equivalente ao Nobel. São elas: Lígia Bojunga Nunes e Ana Maria
Machado”.
Ela explica o que todo livro
infantil deve ter. “Uma linguagem acessível, mas não facilitada com o uso de
diminutivos e de histórias bobinhas. Hoje nós encontramos autores brasileiros
de literatura infantil que tratam de temas universais, como a preservação do
meio ambiente e o compromisso com o social. Livros estes que causam prazer e
fruição em nós, leitores”, diz. A escritora, crítica literária e professora
aposentada pela UFPB também revela “todos os livros que li e resenhei foram
leituras lidas e vividas, que me ‘tocaram’ e me agradaram muito. A literatura
está na minha alma e marca a minha trajetória de vida”.
Mandala de Livros
“A fada que tinha ideias”, da
escritora Fernanda Lopes de Almeida, é um dos livros preferidos de Neide. A
obra conta a história de uma fadinha, chamada Clara Luz, que tem aulas com uma
professora de horizontologia, disciplina cujo papel é “abrir horizontes” e
ajudar Clara a descobrir o mundo. Neide talvez não saiba, mas assim como a
professora de Clara Luz, também “abre horizontes” para inúmeras crianças
paraibanas, por meio do seu projeto Mandala de Livros.
Desde 2008, ela doa anualmente cerca
de mil livros para bibliotecas de escolas públicas da Paraíba. “São obras
mandadas pela FNLIJ, que depois de lidas e analisadas, eu faço uma seleção e
saio distribuindo para vários municípios do Estado”, explica, acrescentando: “além
de doar, às vezes faço palestras e converso com os alunos sobre a literatura
infantil e os incentivo para a prática da leitura”. Neide lembra com alegria,
de uma doação que fez há quatro anos no município de Cabaceiras, no Cariri do
Estado. “Doei 600 livros para uma escola da região, que sequer tinha
biblioteca, e eles criaram uma sala de leitura”.
O perfil
Neide se descreve como uma pessoa
tranquila, mas que ao ver alguém sendo injustiçado ou humilhado, sabe se impor
e lutar pelo o que acha que é certo. Realizando um passeio rápido pela sua
casa, descobrimos que as mesmas mãos que escrevem também sabem pintar quadros de janelas e portas de várias partes do mundo. “Telas que pinto
com a ajuda do professor Miguel Bertollo”, explica. No tempo livre, ela diz
que, além de ler livros, gosta de ouvir músicas clássica e popular. “Chico,
Caetano...”, enumera.
Ela revela ter uma grande admiração
pelo escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós. “É a minha grande paixão literária e eu me
identifico muito com ele. Eu gosto de poesia, ele também. Eu gosto de pássaros,
ele também”, conta, sorrindo. “Seus livros são muito sensíveis”, acrescenta. “Paraibana
de coração”, como também se descreve, ela mostra que também sabe reconhecer o
valor do que é produzido no Estado. “A Paraíba tem excelentes escritores, poetas,
jornalistas e cronistas que precisam ser mais valorizados nacionalmente. Por
isso, quando tenho oportunidade ressalto o valor deles em meus livros e
resenhas”.
Questionada sobre o que a deixa
feliz, responde de prontidão: “minha família, os meus amigos e o fato de ter
o meu trabalho reconhecido, quando estou distribuindo livros para crianças carentes,
são coisas que me deixam muito contente e entusiasmada com a vida”. Sobre ter
projetos literários, o espírito de menina encantada pela brincadeira da escrita
diz: “Quem escreve sempre está pensando em escrever alguma coisa, não é?”.
Matéria publicada no Correio das Artes.
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