sábado, 23 de junho de 2012

O angustiante e maravilhoso incômodo do EU

Lays Rodrigues

            "Vês?! Ninguém assistiu ao formidável/ Enterro de tua última quimera./ Somente a ingratidão - esta pantera -/ Foi tua companheira inseparável!". Há cem anos, em 6 de junho de 1912, estes Versos Íntimos e mais 55 poemas eram publicados no Rio de Janeiro naquela que seria a única obra do poeta Augusto dos Anjos, o EU.
            Com a sua poesia, chocante pelo vocabulário agressivo e pela visão angustiante da matéria, da vida e do cosmos, Augusto se tornou uma experiência única na literatura universal, pela união do simbolismo com o cientificismo naturalista, sendo também o precursor do movimento modernista no Brasil.

“Eu filho do carbono e do amoníaco
Monstro da escuridão e rutilância
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância,
Sobe-me à boca uma ânsia análoga a ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco”
(Psicologia de um vencido).

Do engenho Pau D’Arco para o mundo
            Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu em 20 de abril de 1884 no Engenho Pau d’Arco, no atual município de Sapé, na Paraíba. Filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e da dona de casa Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos, que tiveram nove filhos.
            Com o seu pai, Alexandre dos Anjos, aprendeu a ler e teve o seu primeiro contato com as matérias de conhecimentos gerais. Aos dezesseis anos de idade, começou a estudar no Liceu Paraibano, em João Pessoa, local onde mais tarde iria atuar como professor interino de Literatura.
        Em 1903, matriculou-se no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, bacharelando-se em 1907. Neste mesmo período, ingressou no magistério, primeiro como professor particular, depois lecionando para o Instituto Maciel Pinheiro. Ele chegou a colaborar com o jornal Novenar e a publicar anúncios, em que oferecia aulas particulares, nos jornais A União e O Paíz.
            Três anos depois, casado com Esther Fialho, Augusto se demite do Liceu Paraibano para editar seu livro no Rio de Janeiro, onde passa a lecionar em vários estabelecimentos de ensino para sustentar a família. É quando morre o seu primeiro filho, prematuro de sete meses. Em junho de 1912, consegue publicar o EU, com uma edição de mil exemplares, custeados pelo irmão Odilon dos Anjos, por meio de contrato que estipula as condições de ressarcimento.
           Um ano após a publicação de sua obra, nasce o filho Guilherme Augusto Fialho dos Anjos no Rio de Janeiro. Sem superar as dificuldades da vida, sem lugar certo para morar no Rio, resolve aceitar a direção do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira, em Leopoldina, Minas Gerais. Escreve para a família na Paraíba dizendo-se satisfeito com a mudança, mas a situação não dura muito tempo. Em menos de dois anos, o poeta adoece e morre de uma pneumonia em 12 de novembro de 1914, aos 30 anos de idade, em Leopoldina, onde seus restos mortais permanecem.

Um jovem taciturno
            “Um pássaro molhado, todo encolhido em suas asas”, foi assim que o escritor e dramaturgo Órris Soares, amigo e leitor comovido da poesia de Augusto, descreveu o poeta. O escritor via nele um jovem excêntrico e taciturno que já confessava ser “afeito às mágoas e ao tormento” e “com um tropismo ancestral para o infortúnio”.
            Impressiona fortemente este começo de perfil escrito por Órris. “Foi magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida – faces reentrantes, olhos fundos, orelhas violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por contraste do olhar doente de tristura e nos lábios uma crispação de demônio torturado”.
            A escritora e professora Neide Medeiros Santos, que possui pesquisas em Augusto, afirma que o poeta era um filho dedicado aos pais e um professor devotado aos alunos e ao ensino. “Quando o pai adoeceu, o poeta cancelou o curso jurídico por um ano, para ficar ao seu lado. As cartas endereçadas à mãe, Sinhá Mocinha, revelam o profundo amor que sentia por sua mãe. E o mesmo amor que devotava aos pais e aos irmãos dedicava à mulher e ao filho”.
            “Como professor, os depoimentos de seus contemporâneos e ex-alunos revelam um mestre disciplinado e benevolente. Utilizava um método inovador para a época, pedia que os alunos ministrassem aulas, corrigindo as falhas e elucidando os tópicos obscuros, adotando a maiêutica socrática. Modernamente, diríamos que se utilizava de seminários para exercitar os conhecimentos dos alunos”, continua Neide.
        A professora, crítica literária e escritora Ângela Bezerra de Castro ressalta as circunstâncias da época que o poeta viveu. "Augusto viveu um final de século. E, como todo fim de século, foi um período agônico, que estipulou uma mudança de valores. Somado a isso, houve a decadência da sua família, com a morte do pai, e os problemas econômicos decorrentes da crise dos engenhos".

A obra e a crítica
            De acordo com Ângela Bezerra de Castro, a poesia de Augusto deixou os críticos contemporâneos confusos. “Quando o poeta lançou a sua obra, reinavam no Brasil os movimentos parnasianista - que pregava a ‘forma pela forma’ - e simbolista – onde tudo era névoa, sombra e sugestão, e a realidade era escamoteada pela sociedade”, explica.
            Ela continua: “Então, Augusto veio com a realidade da podridão, da pobreza, dos vícios e de todas as visões que eram chocantes e que o público não estava acostumado, muito menos em uma linguagem poética. E trazendo também toda uma visão da ciência do seu tempo, de pensadores como Spencer e Haeckel, em um caldeirão de confluências, onde não existia limite entre as linguagens científica e filosófica e a poesia”. Segundo Ângela, mesmo aqueles críticos que aprovavam a poesia de Augusto dos Anjos e sentiam nela um traço importante, não tinham um instrumental teórico para conseguir compreendê-la. 
           “Augusto foi um caso em que a crítica precisou crescer e se aperfeiçoar para entendê-lo. Depois dos 50 anos da publicação do EU ainda se dizia que o poeta não devia nada a crítica, tanto era confusa. Entretanto, houve nomes que se destacaram como os estudiosos Cavalcante Proença, Chico de Assis Barbosa e Órris Soares”.
           Considera que hoje as edições do EU aparecem com uma diferença qualitativa muito grande em comparação as que eram publicadas há 50 anos. “Não havia, 50 anos atrás, um texto estabelecido da obra, porque as edições iam acumulando erros, que chamamos de ‘gralhas’, que não são erros do poeta e sim de impressão. Além disso, também existiam algumas confusões com relação à data da morte do poeta e de qual doença ele havia morrido. Uns diziam que de tuberculose, quando na verdade ele morreu com uma pneumonia”. Ângela ressalta o fato extraordinário de o EU ter atingido mais de cinquenta edições.

Poesia humana e musical
            Para a professora e crítica, a poesia de Augusto fala da humanidade, e não apenas do poeta como indivíduo particular. “Augusto está sempre tratando de uma grande questão e a desenvolvendo poeticamente. Um exemplo é o soneto ‘Eterna Mágoa’, que daqui a cem anos ou mais poderá ser recitado, porque fala da dor e do sofrimento, temas universais e inerentes ao ser humano”.
            Ângela entende que apesar de o poeta ser precursor do modernismo, mantém uma forma fixa ao longo da construção dos seus poemas. “A poesia de Augusto não tem as ‘amarras’ que o parnasianista teve ao construir os seus sonetos, onde a gente encontra rimas forçadas. A poesia dele flui porque tem, sobretudo, um grande ritmo e uma grande musicalidade”.
        Constata que o poeta tinha a habilidade de trabalhar em seus versos aquilo que realmente é literário. “Literatura é quando a carne da palavra sustenta uma ideia. E Augusto era mestre nisso, pois utilizava todos os recursos, de metáforas a recursos visuais. Ele tem três sonetos ao pai, e um deles eu considero o mais bonito, que é A meu pai doente, em que toda a dor e solidariedade ao pai são ditas no nível do conteúdo e da forma”.
            “Uma marca de Augusto é o uso do paralelismo. Em A meu pai doente ele repete a mesma ideia, que seria visual, apenas trocando de lugar as palavras: ‘Tu, para amenizar as dores tuas, eu, para amenizar as minhas...’. E ainda no mesmo soneto, o poeta usa uma conjunção aditiva repetidamente e uma figura de linguagem chamada polissíndeto, que vão representando o crescer da dor do poeta, que a esta altura já é imensa: ‘E eu tão sem crença e as árvores tão nuas/ E tu , gemendo, e o horror de nossas duas...’” nota Ângela.
            Ela prossegue: “O verso invertido ‘de assim magoar-te sem pesar havia’ também demonstra toda a confusão de espírito que estava dentro do poeta ao construir o poema. No último terceto ‘Seria a mão de Deus?!’, Augusto questiona a existência de Deus e o cristianismo. E ao repetir o nome de Deus é como se ele estivesse chamando por Deus e perdido diante dele, querendo uma resposta divina”.

O real fantástico
         Ângela compara alguns dos sonetos do poeta ao realismo fantástico de que os escritores Gabriel Garcia Márquez e José Saramago são expoentes. “Ao lermos um poema como Queixas noturnas vemos que só o modernismo poderia traçar uma imagem como essa, em que o real e o imaginário integram o mesmo plano. Esse recurso pode se comparar ao realismo maravilhoso, em que o cerne é destruir o limite entre real palpável e o real do outro ‘mundo’, que é a morte.”

Crítica chocante e expressionista
            Em alguns sonetos de Augusto também é possível constatar versos de uma crítica feroz e chocante. Ângela cita os poemas Gemidos de Arte e Os doentes. “A poesia de Augusto está sempre com uma linguagem que expressa a realidade como ela é, difícil de ser enfrentada. Nos versos ‘E o olho do estuprador se encha de bichos!’, no primeiro poema, ele critica o estuprador, e em ‘Manchou de opróbrios a alma do mazombo/ Cuspiu na cova do morubixaba!’, no segundo, o poeta ataca os colonizadores”. Esses traços chocantes que Augusto se apodera em sua poesia foram vistos, na década de 70, pelo crítico Anatol Rosenfeld, como uma aproximação do expressionismo alemão. “O gosto pela deformação, a visão subjetiva, forte, que não é a cópia fotográfica, mas a cópia de uma expressão, tudo isso contribuiu para que Augusto fosse comparado ao movimento da pintura alemão”, explica Ângela.

Gosto popular
            Apesar dos termos científicos e filosóficos utilizados na obra de Augusto, a sua poesia abre perspectiva para um gosto puramente popular. É o que explica Ângela Bezerra de Castro. “Augusto tem poemas que são os mais populares, que todo mundo sabe recitar. E ele se utiliza de elementos cotidianos, banais. Um exemplo é o verso Toma um fósforo. Acende teu cigarro, do poema Versos Íntimos, que é recitado por qualquer pessoa, seja ela crítica ou não. Essa mesma poesia, que traz os versos O beijo, amigo, é a véspera do escarro/ A mão que afaga é a mesma que apedreja também traz toda uma formulação de um ditado popular que é ‘as aparecias enganam’”, diz.

Culpa e melancolia
            As frequentes referências ao sentimento de culpa, que aparecem de forma intensa e generalizada na obra do poeta, sempre impressionaram o professor Chico Viana. “Ele se expressava de modo que o poeta sozinho fosse o responsável por um crime universal e devesse, por isso, pagar pelos pecados de toda a espécie”, explica.
        De acordo com Chico, que teve Augusto como objeto de sua tese de Doutorado, defendida em dezembro de 1992 na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a obra do paraibano “dissemina uma melancolia profunda, com um sentimento de uma perda essencial, de um luto persistente e definitivo que precipita o indivíduo, a natureza, o cosmo numa espécie de abismo negro que suprime toda alegria”.
            Ele esclarece que a sombra que sempre aparece nos sonetos de Augusto não é senão ‘o rosto escuro de Narciso’, a contraface de desespero que não permite ao contemplador ver a si mesmo. “Essa sombra, que ele se dizia perseguido, espécie de negativo que a ele se antepunha e lhe tomava o lugar, é o alterego tristonho do poeta, que fala no poema inaugural e em muitos outros do livro”.
            Chico destaca que Augusto dos Anjos é um poeta que deve ser sempre estudado e analisado. “Augusto deve ser lido por diversos prismas, cada um deles iluminando um ângulo novo da sua obra romântica, barroca, simbolista e, ao mesmo tempo, moderna. Seus versos falam de temores e anseios cruciais no ser humano, cujo maior desafio é conciliar a porção animal com a aspiração de se elevar a espaços transcendentes”.
            Ele entende que o poeta não chega a uma síntese. “Mesmo porque, não sendo um místico nem um filósofo, ele não tem essa função. A linguagem é sua matéria e seu horizonte. Seus poemas são, basicamente, um testemunho do poder regenerador da arte. Só ela, conforme escreve o poeta em Monólogo de uma Sombra, é capaz de ‘esculpir’ a dor humana e transformar em planície amena a aspereza orográfica do mundo”.

A crença em um mundo melhor
            Para o escritor, professor, membro do Caixa Baixa - grupo de jovens escritores paraibanos – Jairo Cézar Soares, a poesia de Augusto dos Anjos não tem nada de cientificista, ou puramente mórbida e pessimista. “Há muito mais, nessa estupenda obra do que a morte. Digo que a poesia anjosiana é constatativa, descrente no homem atual, mas crente em um novo homem, em um novo cosmo. Não sendo um discurso aporético, mas, de certa forma, otimista em um novo mundo”. 
            Jairo vai além: “Para mim, não existe poesia cientificista. O que Augusto fez foi usar termos científicos ao lado de termos ordinários, cotidianos. Augusto é um poeta do cotidiano. Ferreira Gullar afirma que Augusto recusou alturas e preferiu descer ao subterrâneo. No lugar de pombas e garças, ele usou elementos como sapo, urubu e lagartixa”.
             “Observa-se, nesse trecho final de Os Doentes, que o vate vislumbra uma luz no fim do túnel. Uma esperança em um mundo melhor, um cosmo novo. Isso é pessimismo? Eu não acho. Há sim um desconforto com as mudanças que vieram com o século XX. Século que é considerado o que quebrou mais paradigmas. E Augusto era testemunha desse caos, não apenas no seu Engenho, mas universal. Ele era descrente porque o seu mundo estava desmoronando”, explica Jairo.

Augusto: uma leitura que nunca termina
            Gonzaga Rodrigues, jornalista há anos dedicado à crônica, é um leitor de Augusto desde que o EU lhe caiu às mãos, no vazio escolar de 1950, deixado o colégio. “Comecei a ler nesse momento ainda sem rumo, de luto do meu pai, e nunca terminei de ler, desde o Monólogo de uma sombra ao Último número recolhido na edição de Órris Soares. É uma leitura de mais de sessenta anos que nunca termina”, ressalta.
            “Não como leitura de Breviário – explica Gonzaga - dos antigos padres, ou mesmo da Bíblia de todos os homens, em busca de ensinamentos de vida e de salvação da alma. Mas por compulsão estética, a única a meu sentir, que me liga à sobrenaturalidade”, recorda, muito compenetrado, esse leitor cativo.
           Estende-se mais, como se falasse sozinho: “A estética aí mencionada é o outro reino, a salvação alcançada ainda em vida com o ingresso do nosso “eu”, o “eu” de cada leitor, na transcendência da poesia. Da arte. A arte que nos coloca na mesma mesa e no mesmo ponteiro de relógio com Homero, o primeiro das referências civilizatórias do Ocidente, tão imaterial que há dúvidas se ele precisou nascer. A suprema arte dispensou-o dessa condição mortal que começa pelo nascimento”. 
           É com esse pensamento, com essa abertura, que o presidente da Academia Paraibana de Letras (APL) enquadra Augusto dos Anjos na galeria intemporal dos clássicos. “Como acontece com os grandes autores, os que se tornam clássicos, perdeu-se a conta das edições do EU. Numa das linhas editoriais, centrada no Rio de Janeiro, a partir da edição ‘princeps’ o livrinho de 1912 alcança a 48ª edição, através da Martins Fontes. Noutra linha, a José Olympio, com o estudo de Ferreira Gullar e sob outro título, Toda a poesia de Augusto dos Anjos imprime a 3ª”.
            Ele continua: “A nossa própria Universidade edita o EU com a indicação de 3ª. edição. Circularam e circulam outras versões no Brasil inteiro sem vínculo a qualquer ordem ou sequência editorial. Significa dizer, portanto, que a demanda indistinta, diversificada, culta ou popular pela poesia de Augusto inviabiliza o registro regular do número de edições. Muita coisa fora do índice catalográfico a que todo livro está obrigado”.
          Gonzaga anuncia, então, a lembrança da Academia Paraibana de Letras de incorporar-se aos 100 anos do EU recompondo o Memorial de Augusto dos Anjos, da APL, com apoio da Secretaria Estadual de Educação e Cultura, em convênio renovado pelo secretário Harrison Targino, além da reedição do EU de 1920, organizada por Órris Soares, num momento em que havia se esgotado a 1ª edição e a crítica literária mantinha-se confusa, como diz Ângela Bezerra de Castro, espantada com o poeta, conforme a reação do acadêmico Medeiros de Albuquerque.
            “A reedição do EU de 1920 é uma homenagem a Órris, senhor da iniciativa, organizador da edição que soube respeitar a vontade do poeta ao selecionar os versos segundo os seus padrões estéticos. São 56 poesias, às quais Órris acrescentou as produzidas entre 1912 a 1914, com alguns sonetos deixados nos jornais da Paraíba que não desmereciam os critérios do autor”, explica.

Matéria publicada no Correio das Artes.

Neide Medeiros e o fascínio pelas palavras

Lays Rodrigues

            “Um livro é um brinquedo feito com letras”. A máxima, do escritor, educador, teólogo e psicanalista Rubem Alves, nunca foi tão verdadeira. Aos oito anos, uma garota nascida no interior do Rio Grande do Norte, na cidade de Jardim do Seridó, abandonava bonecas e brincadeiras de “casinha” para se dedicar a uma atividade que viraria uma paixão para a vida inteira: a leitura. Despertada pelas histórias contadas tanto pela mãe como por uma moça que trabalhava na casa do seu tio, a menina fugia todas as noites para a casa de tio Pedro para se deliciar com histórias contadas por Chicuta.  Dessa fase, adveio o gosto pela literatura de cordel, pelos contos populares.
            Ainda na infância, migrando do Rio Grande do Norte para Campina Grande, na Paraíba, ela descobriu um lugar, onde o grande número acessível de histórias aumentava a sua pretensão de domar as letrinhas, a biblioteca pública de Campina, local aonde ia várias vezes por semana. Como toda criança, que sonha em tornar-se adulta para escolher uma profissão, ela, que lia tantas biografias de escritores formados em Direito, achava que deveria entrar no universo jurídico para tornar-se escritora.  Folheando livros e imaginando o desfecho das histórias, ela foi traçando o seu próprio destino, e descobriu que a sua vocação não era o Direito, e sim formar-se em Letras.
            Hoje narrando a sua trajetória, a escritora, crítica literária e professora aposentada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Neide Medeiros Santos, que atualmente mora em João Pessoa, tem uma biblioteca recheada de livros infantis em sua casa. Essa paixão, ela revela, começou em 1982, quando passou a ensinar a disciplina de Literatura Infantil no curso de Letras da UFPB. “Entre debates em sala de aula com alunos e resenhas literárias publicadas em jornais, eu me dei conta que possuía muita afinidade com a literatura infanto-juvenil e o meu objetivo a partir daquele momento foi me dedicar exclusivamente aos livros infantis”, conta.
      Neide é graduada em Letras pela Universidade Regional do Nordeste, atual Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutora em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ela é membro votante da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), secretária geral da Academia de Letras e Artes do Nordeste e pertence à Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba e à União Brasileira de Escritores (UBE).
           Ela já escreveu resenhas literárias para o jornal “O Popular”, de Goiás, o suplemento literário “Panorama Literário”, do Diário de Pernambuco, para o periódico “Correinho das Artes”, revista “Verdes Anos” e o jornal O Norte, da Paraíba, contribuindo inclusive para o suplemento Correio das Artes, onde escreve, de forma periódica, da década de 80 até hoje. Além disso, mantém, atualmente, uma coluna literária no jornal Contraponto e escreve para o seu blog na internet “Nas trilhas da literatura”.
            Com uma linguagem clara, proveniente das suas experiências nos jornais, ela já escreveu quatro livros, e foi co-autora de sete. O primeiro, “A hora e a vez da literatura infantil”, publicado em 2000 pela editora Outras Palavras do Recife, reúne dez textos teóricos de análise dos livros infanto-juvenis brasileiros. “Foi o primeiro, por isso, tenho um carinho especial por ele. Eu já tinha redigido textos para vários jornais, mas nunca tinha escrito um livro. Então, quando o vi pronto e percebi que o meu trabalho estava sendo reconhecido foi uma gratificação muito grande”, revela.
            O segundo livro, lançado em 2005, “Guriatã: uma viagem mítica ao ‘país paraíso’”, pela editora Ideia de João Pessoa, foi inicialmente uma tese de doutorado, defendida na UNESP em 1999. “Foi um trabalho de pesquisa bastante extenso, que durou cinco anos, tive que transformar a linguagem científica da tese em uma linguagem mais clara, que atraísse o leitor”, diz Neide. A publicação é um trilhar pela poesia de Marcus Accioly, com ênfase para a presença dos mitos eruditos e populares presentes no livro “Guriatã: um cordel para menino”.
            Em 2007, possuindo forte admiração pela poesia e pela história de vida da poeta e psicóloga paraibana Violeta Formiga, Neide publica “Violeta Formiga: 25 anos de encantamento”, pela Editora Universitária da UFPB. “Quando professora de Teoria da Literatura, eu sempre utilizava os poemas de Violeta para análise, fazia comentários durante as aulas e gostava muito da sua poesia. Então, após ler materiais sobre ela e opiniões de poetas e jornalistas registradas em jornais, tracei um relato biográfico para homenageá-la e melhor compreender a sua dimensão poética”, explica. Violeta também é patrona de Neide na Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba, ocupando a cadeira 40.
            “Livros à espera do leitor”, fruto de uma seleção de textos publicados entre os anos de 2007 e 2009 no jornal O Norte, realizado com o apoio da editora Zarinha Centro de Cultura em 2009, é, nas palavras do jornalista William Costa, “um mapa precioso para quem deseja desbravar o vasto território da literatura infantil brasileira”. O livro é dividido em cinco blocos - Criança, Jovem, Teórico, Ilustração e Poesia -, trazendo resenhas de livros enviados por editoras, por meio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. “Foi uma seleção difícil, porque O Norte foi o primeiro jornal que eu passei a publicar resenhas semanalmente, nos outros periódicos, a publicação era esporádica. Então foram muitos textos para analisar, até chegar a compilação de 35 para compor o livro”, conta.

Trabalhos de co-autoria
            Reunindo artigos de quinze escritoras paraibanas sobre leituras que marcaram a sua infância e adolescência, Neide Medeiros Santos e a escritora e professora Yó Limeira lançam em 2006 o livro “Memórias rendilhadas: vozes femininas”, pela Editora Universitária da UFPB.  A coletânea tem a participação de, entre outras escritoras, Mila Cerqueira, Cristina Guedes, Lourdinha Luna, Emília Guerra, Marília Arnaud, Vitória Lima, Petra Ramalho e as próprias organizadoras, Neide e Yó, sendo lembrados nomes como Victor Hugo, Balzac, José Lins do Rêgo e Cervantes. 
            Cinco anos depois, a parceria entre as duas escritoras é retomada com a publicação de “Confesso que li”. Dessa vez compilando relatos de 34 escritores e jornalistas paraibanos, como José Octavio de Arruda e Melo, Magno Nicolau, William Costa, Fernando Moura, Hildeberto Barbosa Filho, W.J Solha, Jomar Morais Souto, Chico Viana, Hermano José e Carlos Pereira, sobre leituras feitas na infância. O título do livro é uma paráfrase do livro de memórias “Confesso que vivi” do poeta chileno Pablo Neruda.
          Fascinada pela obra do poeta Augusto dos Anjos, Neide ingressa em 2007 nos projetos de pesquisa “Reconstituição do Universo de Augusto dos Anjos” e “Redescobrindo as trilhas de Augusto dos Anjos”, ambos aprovados no Fundo de Incentivo à Cultura (FIC), do Governo da Paraíba. As pesquisas, que também contaram com a participação da professora Maria do Socorro Aragão e da arquivista e bibliotecária Ana Isabel de Souza Leão Andrade, tiveram como fonte familiares e amigos do poeta, bibliografias, cópias de cartas de Augusto para sua mãe e textos publicados no jornal “Nonevar”, que circulava no início do século XX na Paraíba.
            Os dois projetos resultaram na publicação de cinco livros, pela Editora Ideia. São eles: “Memorial Augusto dos Anjos: Uma visita guiada” (2008), “Memorial Augusto dos Anjos: Um roteiro cultural e poético” (2008), “Augusto dos Anjos: Uma biobibliografia” (2008), “Conversando sobre Augusto dos Anjos: Uma história oral” (2009) e “Augusto dos Anjos em imagens: Uma fotobiografia” (2010). Neste último, são encontrados poemas manuscritos e fotografias de locais onde o poeta morou, estudou e trabalhou, como o Grupo Escolar Ribeiro Junqueira, em Leopoldina, Minas Gerais, o Liceu Paraibano, em João Pessoa, a Faculdade de Direito do Recife, a casa-grande do engenho Pau d’Arco e a capelinha do Senhor do Bonfim.
          “Na medida em que fomos nos envolvendo com as pesquisas, criamos uma fascinação cada vez maior pela poesia de Augusto dos Anjos. Vimos, inclusive, outras facetas da vida do poeta. Por exemplo, percebemos que o seu trabalho não retratava o homem Augusto. Ele não era simplesmente o poeta da dor e da melancolia, ele era um homem comum, que tinha momentos de alegria e de humor, como qualquer outra pessoa. Além disso, como eu, Augusto também era professor e gostava de poesia, aumentando a minha admiração e identificação com ele”, explica Neide.

FNLIJ
            A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) foi criada em 1968 por um grupo de educadoras, Laura Sandroni (jornalista e crítica de literatura infantil), Ruth Vilela (bibliotecária) e Maria Luíza Barbosa (técnica em assuntos educacionais). A organização, que tem o objetivo de divulgar a boa literatura produzida no Brasil para crianças e jovens e funciona sem possuir fins lucrativos, publica a relação dos melhores livros produzidos no Brasil para o público infanto-juvenil e atribui prêmios, organizando feiras de livros, salões, seminários, congressos e encontros literários.
        No Brasil, existem 30 membros votantes da FNLIJ, destes apenas dois estão no Nordeste, a escritora Tereza Bonfim, no Maranhão, e Neide Medeiros Santos, representando a Paraíba. Todos os anos, os integrantes recebem em sua casa livros infanto-juvenis de várias editoras, por meio da Fundação. Primeiro, eles têm o papel de lê-los para julgar se os livros são bons ou não, selecionando aqueles que devem receber o selo de Altamente Recomendável (AR). Depois, recebem novamente uma lista enviada pela FNLIJ de todos os livros que ganharam o selo “AR” dos membros votantes para selecionar a melhor publicação de cada categoria.
            Dentre as categorias, estão Criança, Jovem, Imagem, Informativo, Hors Concours, Informativo, Poesia, Livro Brinquedo, Teatro, Teórico, Reconto, Literatura em Língua Portuguesa, Tradução/Adaptação Criança, Tradução/Adaptação Jovem, Escritor Revelação, Ilustrador Revelação, Melhor Ilustração e Melhor Projeto Editorial. Os autores ou ilustradores dos livros mais votados pelos integrantes da FNLIJ são premiados durante a festa do Salão do Livro, que acontece anualmente no Rio de Janeiro. De acordo com Neide, a premiação deste ano vai ser realizada em 23 de maio. “Eles já me convidaram para participar”, diz ela, entusiasmada.
        São presentes enviados pela Fundação boa parte dos livros que preenchem a biblioteca de Neide, em sua casa. Ela foi convidada para ser membro da organização em 2001, período em que morava no Recife, em Pernambuco. Mas em 2003, vindo morar em João Pessoa, ela pediu transferência, e desde então representa a Paraíba na Fundação. A escritora revela que já publicou muitas resenhas de livros que ganharam prêmios pela FNLIJ nos jornais O Norte e Contraponto. “Algumas vezes, antes mesmo de eles serem premiados, eu escrevo textos elogiando-os”, comenta.
            Neide destaca a importância da premiação realizada pela FNLIJ. “É um dos maiores concursos que acontecem no Brasil em termos de literatura infanto-juvenil. Temos, por exemplo, o prêmio Jabuti, que é um grande concurso literário, mas contempla várias categorias, como o romance, a história e os livros teóricos. Então, o prêmio da FNLIJ não só valoriza a produção desse tipo de literatura como revela novos talentos na área”. Ela acrescenta também que sente prazer em ler, julgar e selecionar os livros do gênero. “É um trabalho gratificante”.

O apego pelos livros infantis
            Neide Medeiros Santos não vê distinção entre a literatura feita para adultos e a literatura infanto-juvenil. “Todas elas têm a obrigação de ser boas. Principalmente a infantil, pois forma leitores”. Ela também não esconde a sua admiração pela feita pelos escritores brasileiros. “A literatura infanto-juvenil do Brasil, eu digo sem medo de errar, é uma das melhores do mundo. E isso nós podemos provar. Temos duas escritoras brasileiras que ganharam o prêmio Andersen de Literatura Infantil, que é equivalente ao Nobel. São elas: Lígia Bojunga Nunes e Ana Maria Machado”.
            Ela explica o que todo livro infantil deve ter. “Uma linguagem acessível, mas não facilitada com o uso de diminutivos e de histórias bobinhas. Hoje nós encontramos autores brasileiros de literatura infantil que tratam de temas universais, como a preservação do meio ambiente e o compromisso com o social. Livros estes que causam prazer e fruição em nós, leitores”, diz. A escritora, crítica literária e professora aposentada pela UFPB também revela “todos os livros que li e resenhei foram leituras lidas e vividas, que me ‘tocaram’ e me agradaram muito. A literatura está na minha alma e marca a minha trajetória de vida”.

Mandala de Livros
            “A fada que tinha ideias”, da escritora Fernanda Lopes de Almeida, é um dos livros preferidos de Neide. A obra conta a história de uma fadinha, chamada Clara Luz, que tem aulas com uma professora de horizontologia, disciplina cujo papel é “abrir horizontes” e ajudar Clara a descobrir o mundo. Neide talvez não saiba, mas assim como a professora de Clara Luz, também “abre horizontes” para inúmeras crianças paraibanas, por meio do seu projeto Mandala de Livros.
            Desde 2008, ela doa anualmente cerca de mil livros para bibliotecas de escolas públicas da Paraíba. “São obras mandadas pela FNLIJ, que depois de lidas e analisadas, eu faço uma seleção e saio distribuindo para vários municípios do Estado”, explica, acrescentando: “além de doar, às vezes faço palestras e converso com os alunos sobre a literatura infantil e os incentivo para a prática da leitura”. Neide lembra com alegria, de uma doação que fez há quatro anos no município de Cabaceiras, no Cariri do Estado. “Doei 600 livros para uma escola da região, que sequer tinha biblioteca, e eles criaram uma sala de leitura”.

O perfil
            Neide se descreve como uma pessoa tranquila, mas que ao ver alguém sendo injustiçado ou humilhado, sabe se impor e lutar pelo o que acha que é certo. Realizando um passeio rápido pela sua casa, descobrimos que as mesmas mãos que escrevem também sabem pintar quadros de janelas e portas de várias partes do mundo. “Telas que pinto com a ajuda do professor Miguel Bertollo”, explica. No tempo livre, ela diz que, além de ler livros, gosta de ouvir músicas clássica e popular. “Chico, Caetano...”, enumera.
            Ela revela ter uma grande admiração pelo escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós. “É a minha grande paixão literária e eu me identifico muito com ele. Eu gosto de poesia, ele também. Eu gosto de pássaros, ele também”, conta, sorrindo. “Seus livros são muito sensíveis”, acrescenta. “Paraibana de coração”, como também se descreve, ela mostra que também sabe reconhecer o valor do que é produzido no Estado. “A Paraíba tem excelentes escritores, poetas, jornalistas e cronistas que precisam ser mais valorizados nacionalmente. Por isso, quando tenho oportunidade ressalto o valor deles em meus livros e resenhas”.
            Questionada sobre o que a deixa feliz, responde de prontidão: “minha família, os meus amigos e o fato de ter o meu trabalho reconhecido, quando estou distribuindo livros para crianças carentes, são coisas que me deixam muito contente e entusiasmada com a vida”. Sobre ter projetos literários, o espírito de menina encantada pela brincadeira da escrita diz: “Quem escreve sempre está pensando em escrever alguma coisa, não é?”.

Matéria publicada no Correio das Artes.

domingo, 22 de maio de 2011

Fernando Pessoa e o símbolo da noite

Lays Rodrigues


O movimento de pessoas e de carros nas ruas é pouco, a luz que ao mesmo tempo ilumina e aquece já se foi, o silêncio da noite e o ambiente fantasmagórico começam a dar voz ao que ao longo do dia tinha sido silenciado, a sensação de vazio, angústia e descontentamento interior...
Cenário ideal para o surgimento de lamentações e dúvidas existenciais, o símbolo da noite no discurso poético encontra-se muitas vezes relacionado e envolvido às mágoas e às carências do eu-lírico. Tudo isto começou no Pré-Romantismo nos fins do século XVIII, em que a noite, misteriosa e sugestiva da morte, passou a ser vista como um espaço para o pranto.
Considerado por muitos críticos um poeta noturno, o escritor português Fernando Pessoa, que cultivou tanto a poesia quanto a prosa e foi um dos principais expoentes do Modernismo português, figura entre os poetas que utilizaram a imaginação e a criatividade para manifestar símbolos noturnos que expressam a vontade e o estado de espírito de forma plurissignificativa.
No conjunto de poemas intitulado “Cancioneiro”, o autor, que é destaque na criação de heterônomos (mais de 70 personagens), aparece ortônimo envolvendo o símbolo da noite a temas como solidão, infância, nostalgia, ocultismo e tédio, evidenciando certa ligação com o movimento literário simbolista.
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços/ E chama-me teu filho... eu sou um rei que voluntariamente abandonei/ O meu trono de sonhos e cansaços...” (trecho do poema Abdicação de Fernando Pessoa).
Segundo a doutoranda em Língua Portuguesa e autora da tese “O símbolo da noite no ‘Cancioneiro’ de Fernando Pessoa”, Mônica Império Simiscuka,“temas já antigos como a antecipação da morte, a capacidade regeneradora imposta pelo anúncio de um novo dia, os questionamentos acerca do mistério da existência e outros tantos são renovados pela sensação de vazio, tédio, insegurança e solidão peculiares no universo simbólico pessoano. O espaço noturno é revisitado de forma singular e com uma atitude melancólica que o tornam propício à ordenação dos dramas pessoais, às preocupações intimistas e extremadas e mesmo à abdicação existencial”.
Assim, baseado na tese, o amanhecer, que põe fim à escuridão, aparece nos poemas noturnos de Pessoa com uma carga negativa, na medida em que o dia só restaura o desespero e as mágoas individuais. “Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã - como nos desalegra!” (trecho do poema Hora Absurda, de Pessoa) Já a noite, com um aspecto positivo, aparece em paralelo com a morte, devido ao fato de ambas (noite e morte) serem transitórias diante da vida e porem fim às dores e às torturas da alma. “Com a noite tudo acaba” (fragmento do poema Um muro de nuvens densas, Pessoa).
O mundo dos sonhos também é recorrente nos poemas de Pessoa, e aparece como refúgio para realização dos desejos reprimidos, fundindo-se ao sujeito poético. “Se as esperanças do sujeito poético são malogradas pelo desengano doloroso, a evasão pelo sonho e as experiências oníricas lhe permitem cumprir em outro plano o que não se pode concretizar de fato, dando um alívio passageiro ao sofrimento do indivíduo, impotente diante do mistério da existência. Desta forma, o ambiente noturno pode simbolizar igualmente o engano aceito por livre-arbítrio, uma vez que, ainda sendo reduzida a nada e à morte, a vida real é preterida em relação às sensações experimentadas durante o sono”, continua Mônica Simiscuka.
            Sonho / Não sei quem sou neste momento, / Durmo sentindo-me. / Na hora calma/Meu pensamento esquece o pensamento/Minha alma não tem alma. / Se existo é um erro eu o saber/ Se acordo parece que erro/ Sinto que não sei. / Nada quero nem tenho nem recordo./ Não tenho ser nem lei. / Lapso da consciência entre ilusões/ Fantasmas me limitam e me contêm./Dorme insciente de alheios corações/ Coração de ninguém.” (PESSOA, Sonho, não sei quem sou)
            Ainda para ela, “O símbolo da noite e seus derivados são tratados dentro da lógica poética pessoana, como um adiamento da aparição e da constatação da única verdade que se pode apreender frente aos mistérios da existência: que eles são intangíveis. A busca simbólica dessa verdade é incessante, mas vã. Buscá-la continuamente, porém, é menos doloroso do que saber a verdade inexorável sobre ela”.

Documentário sobre Radegundis Feitosa é lançado na PB

Um músico que inspirou gerações e revitalizou o cenário de música instrumental da Paraíba. A trajetória de vida do trombonista itaporanguense Radegundis Feitosa, falecido no ano passado, é contada por meio de um documentário lançado neste último sábado, 14, no Cine Bangüê do Espaço Cultural da Paraíba.

Trilhando um longo caminho acadêmico, Radegundis era Doutor em trombone performance pela “The Catholic University of América” de Washington, EUA (1991), Mestre pela “The Juilliard School” de Nova York, EUA (1987) e Bacharel pela Universidade Federal da Paraíba(1983), onde lecionava. O músico também era o trombone principal da Orquestra Sinfônica da Paraíba e trombonista do BRASSIL (Grupo de Metais e percussão).

Contando com o depoimento de músicos importantes do cenário paraibano atual, além de um extenso material de arquivo, o documentário filmado em longa-metragem foi produzido pela TV UFPB com o apoio do Núcleo de Produção Digital da Paraíba, e dirigido por Arthur Lins e Niu Batista.

Segundo Arthur Lins, a idéia de fazer um documentário sobre o músico surgiu após seu falecimento, em julho de 2010. “A diretora da TV UFPB, Sandra Moura, me chamou junto a equipe, e viu que a gente precisava fazer uma espécie de homenagem a Radegundis, numa obra que sintetizasse sua trajetória”.

Ele afirma que ao todo foram três meses de pesquisa e captação. “Durante três meses, pesquisamos quem foi o mestre Radegundis e chamamos Carlos Anísio, maestro paraibano, e o filho de Radegundis, Radegundis Tavares Filho, que nos indicaram músicos excepcionais que tinham ligações afetivas com o personagem”.

O documentário, além de retratar o destaque alcançado pelo músico como um dos melhores trombonistas do mundo, mostra o seu papel enquanto educador musical na Universidade Federal da Paraíba, e incentivador de jovens músicos do interior.

“Radegundis sintetiza a trajetória de várias pessoas que saem do interior e se destacam no mundo, mantendo os seus vínculos com a cidade natal ou com a região em que vivem. Existe um poder de sedução na trajetória dele enquanto pessoa que é muito relevante contar para ver se a gente consegue repercutir esse poder de sedução que ele já exercia nos jovens músicos”, destaca Arthur Lins.

O filme, que terá uma tiragem de duas mil cópias, será legendado em inglês e espanhol para ser distribuído em conservatórios e escolas de música. Além disso, em breve o documentário será exibido de forma inédita na TV UFPB.

Lays Rodrigues

domingo, 20 de março de 2011

Crítica O Poderoso Chefão


Baseado no livro de Mario Puzzo, The Godfather, e dirigido por Francis Ford Coppola, O Poderoso Chefão é considerado por muitos críticos um dos melhores filmes de todos os tempos. O primeiro filme da trilogia, de 1973, retrata de maneira fria e crua como agia a máfia siciliana em Nova York nos anos 40. Quem interpreta o grande chefe de família e das máfias, Don Vito Corleone, é Marlon Brando, num papel que lhe rendeu o Oscar de melhor ator. Corleone é também o “padrinho”, aquele que atende a favores de diversas pessoas, mesmo que o “favor” resulte no assassinato de outros indivíduos.

No começo da trama, já somos levados a deslumbrar da maravilhosa técnica e fotografia características do filme, a câmera começa dando foco no rosto de Bonasera (Salvatore Corsitto), que pede a Corleone a morte de dois jovens que espancaram sua filha. Lentamente, a câmera faz um travelling do rosto do ator até se enquadrar num plano de costas em Corleone, que ouve atentamente e responde ao apadrinhado poucos minutos depois, numa voz de rouquidão e sutileza característica. Fora do escritório, acontece a festa de casamento de Connie (Talia Shire), filha de Corleone, com muita música, dança e comida típicos de uma celebração italiana. É neste ambiente de festividade que vamos conhecendo os outros filhos do chefão, Sonny (James Caan), o suposto sucessor do pai, Tom Hagen (Robert Duvall), o advogado da família; Fredo (John Cazale), filho mais velho e também envolvido na máfia; e Michael (Al Pacino), que, diferentemente dos demais, é um homem comum, não se interessa pelos negócios do pai e está acompanhado da namorada Kay Adams (Diane Keaton).

A rotina da família é posta em xeque quando outras famílias de mafiosos vão pedir apoio financeiro e político para o tráfico de narcóticos a Corleone, e este lhes nega. O que dá início a uma série de ataques e assassinatos contra ele e sua família para que o mesmo mude de idéia. É neste cenário de guerra que, paradoxalmente, Michael Corleone se vê no papel de assumir o lugar do pai, e a trama segue o seu enredo.

Com relação à parte técnica, as diversas tomadas de câmera em vários momentos do filme resultam em planos cinematográficos cheios de significado. Quando, por exemplo, poucos segundos antes de assumir a liderança do pai, a câmera realiza um travelling focalizando, num plano contra-plongée (de baixo para cima), o personagem de Al Pacino numa conversa com os demais irmãos, inferindo a suposta autoridade do personagem diante deles. O plano sequência na mansão do produtor de cinema, que por não atender um pedido de Corleone, é surpreendido ao acordar com a cabeça cortada de seu cavalo preferido debaixo de seus lençóis; e o plano conjunto (total) e plongée (de cima para baixo) na barraca de frutas, onde ocorre o atentado contra Corleone, também são grandes exemplos da variedade de planos pensados do filme. A fotografia de Gordon Willis, intercalando um ambiente sombrio nas conversas mais “pesadas” dos personagens, e com um cenário, em várias partes da trama, urbano, também contribuem fundamentalmente para enquadrar o clima de violência que Coppola queria. Sem falar na trilha sonora, de Nino Rota, grande contribuinte de Fellini, que combina perfeitamente as músicas de acordo com cada momento do filme. Desde o casamento, com uma música mais animada e empolgante, a uma trilha mais triste e ao mesmo tempo sutil na estada de Michael na Sicília, até uma que dá um clima de completa tensão e suspense, como na hora da maioria dos assassinatos e ainda no plano sequência na mansão do produtor de cinema.

Nota-se também uma simbologia utilizada pelos mafiosos ao longo do filme. Além dos diálogos bem sacados, há momentos em que é preciso mergulhar no universo de cada personagem para poder entender algumas situações, como por exemplo, quando Sonny recebe um peixe morto embalado para simbolizar que o capanga Luca Brasi “virou comida de peixe”, ou seja, morreu; ou quando Corleone solta a frase que mais tarde se tornaria uma das mais reconhecidas do cinema, “Vou fazer uma proposta que ele não irá recusar”, inferindo que colocará uma arma na cabeça de um indivíduo. Além destas simbologias, percebe-se certo prezo de Corleone e seus capangas pelos valores tradicionais da família, apesar de toda a violência gerada por eles. Na cena em que um dos escoltas do chefão, após atirar em um suposto traidor que está num automóvel, solta a máxima “Leave the gun, take the cannoli” (em português: Deixe a arma, pegue o cannoli) para o amigo, ele deixa explicito que mesmo cometendo a imprudência de um crime, o capanga se sente na necessidade de levar consigo o cannoli (sobremesa italiana) que a esposa havia preparado anteriormente, demonstrando reconhecimento e respeito à vida a dois com a companheira.

As performances dos personagens escolhidos por Coppola também são um show à parte. Alem das interpretações magistrais de James Caan e Robert Duvall, o ator Marlon Brando tem uma excelente atuação no filme, o modo sutil como Corleone, seu personagem, trata os assuntos da família, intercalando uma postura autoritária a uma tranquilidade e segurança, dão um ar de experiência admirável ao personagem. Bem como Al Pacino, que consegue transparecer perfeitamente a mudança ocorrida em Michael ao longo da trama, no começo com uma postura de homem comum e benevolente, e após entrar no mundo da máfia, se comportando agressivamente e metodicamente. Os diálogos inicial e final com Kay Adams, a namorada e futura esposa, é um exemplo disso. Na festa de casamento da irmã, Michael conta timidamente a Kay sobre os crimes cometidos por sua família, sem demonstrar nenhum interesse por este mundo, e nos segundos finais do filme, os dois aparecem se desentendendo devido ao comportamento autoritário e violento do companheiro, que se tornou o “Poderoso Chefão” da trama.

Assim, possuindo narração, técnica e interpretações impecáveis, além de um grande número de cenas marcantes, O Poderoso Chefão consegue mostrar de maneira realista, cruel, e ao mesmo tempo magistral, a ambientação da máfia siciliana dos anos 40, o que lhe rendeu e rende até hoje, a referência de ser uma lição de cinema para aqueles que se interessam pela área cinematográfica.

Lays Rodrigues.

terça-feira, 9 de março de 2010

Meu avô e o IPAD


Para os que ainda não conhecem, foi lançado pela Apple, o IPAD, "um aparelho que supostamente une as funções de computador, videogame, tocador de músicas e de vídeos e leitor digital". Ele já foi alvo de várias discussões entre as gerações mais velhas, meu avô, principalmente, e os seus filhos e netos aqui em casa. A dúvida central era, "Esse lançamento seria capaz de substituir, de vez, os livros e os jornais impressos?"

Meu avô é jornalista, tem um amor incondicional pelos seus livrinhos antigos, guardados em uma biblioteca alternativa dentro de sua própria casa. Espantado, veio me perguntar o que eu achava a respeito do assunto.

"Vô, o IPAD é fruto de uma geração que busca cada vez mais praticidade e economia. Queremos estar conectados com o que há de melhor em jornais, revistas e todas as informações proporcionadas por eles, mas de uma forma preguiçosa. Veja só o que aconteceu em relação aos Cds, suas vendas vem diminuindo, pois hoje qualquer pessoa pode comprar um mp3 baratinho e colocar músicas baixadas pelo computador para escutá-las onde quiser. Não deixa de ser assustador, eu sei. Mas não é o IPAD em si que assusta, e sim essa geração, até onde ela estará disposta a usar a tecnologia para substituir os nossos padrões de conhecimento e entretenimento? E como isso influenciará nossa forma de pensar e de agir?" - disse, ofegante.

"Só o tempo dirá!" - concluiu, sem hesitar, deixando-me sem palavras.

Lays Rodrigues.