Lays Rodrigues
"Vês?!
Ninguém assistiu ao formidável/ Enterro de tua última quimera./ Somente a
ingratidão - esta pantera -/ Foi tua companheira inseparável!". Há cem anos, em 6 de junho de 1912, estes Versos Íntimos e mais 55 poemas eram
publicados no Rio de Janeiro naquela que seria a única obra do poeta Augusto
dos Anjos, o EU.
Com a sua poesia, chocante pelo vocabulário agressivo e
pela visão angustiante da matéria, da vida e do cosmos, Augusto se tornou uma
experiência única na literatura universal, pela união do simbolismo com o cientificismo
naturalista, sendo também o precursor do movimento modernista no Brasil.
“Eu filho do carbono e do amoníaco
Monstro da escuridão e rutilância
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância,
Sobe-me à boca uma ânsia análoga a ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco”
(Psicologia de um vencido).
Do engenho Pau D’Arco para o mundo
Augusto
de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu em 20 de abril de 1884 no Engenho Pau
d’Arco, no atual município de Sapé, na Paraíba. Filho de Alexandre Rodrigues
dos Anjos e da dona de casa Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos, que tiveram nove
filhos.
Com
o seu pai, Alexandre dos Anjos, aprendeu a ler e teve o seu primeiro contato
com as matérias de conhecimentos gerais. Aos dezesseis anos de idade, começou a
estudar no Liceu Paraibano, em João Pessoa, local onde mais tarde iria atuar
como professor interino de Literatura.
Em
1903, matriculou-se no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife,
bacharelando-se em 1907. Neste mesmo período, ingressou no magistério, primeiro
como professor particular, depois lecionando para o Instituto Maciel Pinheiro.
Ele chegou a colaborar com o jornal Novenar
e a publicar anúncios, em que oferecia aulas particulares, nos jornais A União e O Paíz.
Três
anos depois, casado com Esther Fialho, Augusto se demite do Liceu Paraibano
para editar seu livro no Rio de Janeiro, onde passa a lecionar em vários
estabelecimentos de ensino para sustentar a família. É quando morre o seu
primeiro filho, prematuro de sete meses. Em
junho de 1912, consegue publicar o EU,
com uma edição de mil exemplares, custeados pelo irmão Odilon dos Anjos, por
meio de contrato que estipula as condições de ressarcimento.
Um
ano após a publicação de sua obra, nasce o filho Guilherme Augusto Fialho dos
Anjos no Rio de Janeiro. Sem superar as dificuldades da vida, sem lugar certo para
morar no Rio, resolve aceitar a direção do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira, em
Leopoldina, Minas Gerais. Escreve
para a família na Paraíba dizendo-se satisfeito com a mudança, mas a situação
não dura muito tempo. Em menos de dois anos, o poeta adoece e morre de uma
pneumonia em 12 de novembro de 1914, aos 30 anos de idade, em Leopoldina, onde
seus restos mortais permanecem.
Um jovem
taciturno
“Um
pássaro molhado, todo encolhido em suas asas”, foi assim que o escritor e
dramaturgo Órris Soares, amigo e leitor comovido da poesia de Augusto, descreveu
o poeta. O escritor via nele um jovem excêntrico e taciturno que já confessava
ser “afeito às mágoas e ao tormento” e “com um tropismo ancestral para o
infortúnio”.
Impressiona
fortemente este começo de perfil escrito por Órris. “Foi magro meu desventurado
amigo, de magreza esquálida – faces reentrantes, olhos fundos, orelhas
violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento,
por contraste do olhar doente de tristura e nos lábios uma crispação de demônio
torturado”.
A
escritora e professora Neide Medeiros Santos, que possui pesquisas em Augusto,
afirma que o poeta era um filho dedicado aos pais e um professor devotado aos
alunos e ao ensino. “Quando o pai adoeceu, o poeta cancelou o curso
jurídico por um ano, para ficar ao seu lado. As cartas endereçadas à mãe, Sinhá
Mocinha, revelam o profundo amor que sentia por sua mãe. E o mesmo amor que
devotava aos pais e aos irmãos dedicava à mulher e ao filho”.
“Como
professor, os depoimentos de seus contemporâneos e ex-alunos revelam um mestre
disciplinado e benevolente. Utilizava um método inovador para a época, pedia
que os alunos ministrassem aulas, corrigindo as falhas e elucidando os tópicos
obscuros, adotando a maiêutica socrática. Modernamente, diríamos que se
utilizava de seminários para exercitar os conhecimentos dos alunos”, continua
Neide.
A
professora, crítica literária e escritora Ângela Bezerra de Castro ressalta as
circunstâncias da época que o poeta viveu. "Augusto viveu um final de
século. E, como todo fim de século, foi um período agônico, que estipulou uma
mudança de valores. Somado a isso, houve a decadência da sua família, com a
morte do pai, e os problemas econômicos decorrentes da crise dos
engenhos".
A obra e a crítica
De acordo com Ângela Bezerra de Castro, a poesia de
Augusto deixou os críticos contemporâneos confusos. “Quando o poeta lançou a
sua obra, reinavam no Brasil os movimentos parnasianista - que pregava a ‘forma
pela forma’ - e simbolista – onde tudo era névoa, sombra e sugestão, e a
realidade era escamoteada pela sociedade”, explica.
Ela continua: “Então, Augusto veio com a realidade da
podridão, da pobreza, dos vícios e de todas as visões que eram chocantes e que
o público não estava acostumado, muito menos em uma linguagem poética. E
trazendo também toda uma visão da ciência do seu tempo, de pensadores como
Spencer e Haeckel, em um caldeirão de confluências, onde não existia limite
entre as linguagens científica e filosófica e a poesia”. Segundo Ângela, mesmo aqueles
críticos que aprovavam a poesia de Augusto dos Anjos e sentiam nela um traço
importante, não tinham um instrumental teórico para conseguir compreendê-la.
“Augusto foi um caso em que a crítica precisou crescer e se aperfeiçoar para
entendê-lo. Depois dos 50 anos da publicação do EU ainda se dizia que o poeta não devia nada a crítica, tanto era
confusa. Entretanto, houve nomes que se destacaram como os estudiosos
Cavalcante Proença, Chico de Assis Barbosa e Órris Soares”.
Considera que hoje as edições do EU aparecem com uma diferença
qualitativa muito grande em comparação as que eram publicadas há 50 anos. “Não
havia, 50 anos atrás, um texto estabelecido da obra, porque as edições iam acumulando
erros, que chamamos de ‘gralhas’, que não são erros do poeta e sim de
impressão. Além disso, também existiam algumas confusões com relação à data da
morte do poeta e de qual doença ele havia morrido. Uns diziam que de tuberculose,
quando na verdade ele morreu com uma pneumonia”. Ângela ressalta o fato
extraordinário de o EU ter atingido
mais de cinquenta edições.
Poesia humana e musical
Para a professora e crítica, a
poesia de Augusto fala da humanidade, e não apenas do poeta como indivíduo
particular. “Augusto está sempre tratando de uma grande questão e a
desenvolvendo poeticamente. Um exemplo é o soneto ‘Eterna Mágoa’, que daqui a
cem anos ou mais poderá ser recitado, porque fala da dor e do sofrimento, temas
universais e inerentes ao ser humano”.
Ângela entende que apesar de o poeta
ser precursor do modernismo, mantém uma forma fixa ao longo da construção dos
seus poemas. “A poesia de Augusto não tem as ‘amarras’ que o parnasianista teve
ao construir os seus sonetos, onde a gente encontra rimas forçadas. A poesia
dele flui porque tem, sobretudo, um grande ritmo e uma grande musicalidade”.
Constata que o poeta tinha a habilidade
de trabalhar em seus versos aquilo que realmente é literário. “Literatura é
quando a carne da palavra sustenta uma ideia. E Augusto era mestre nisso, pois
utilizava todos os recursos, de metáforas a recursos visuais. Ele tem três
sonetos ao pai, e um deles eu considero o mais bonito, que é A meu pai doente, em que toda a dor e
solidariedade ao pai são ditas no nível do conteúdo e da forma”.
“Uma marca de Augusto é o uso do
paralelismo. Em A meu pai doente ele
repete a mesma ideia, que seria visual, apenas trocando de lugar as palavras: ‘Tu, para amenizar as dores tuas, eu, para
amenizar as minhas...’. E ainda no mesmo soneto, o poeta usa uma conjunção
aditiva repetidamente e uma figura de linguagem chamada polissíndeto, que vão
representando o crescer da dor do poeta, que a esta altura já é imensa: ‘E eu tão sem crença e as árvores tão nuas/
E tu , gemendo, e o horror de nossas duas...’” nota Ângela.
Ela prossegue: “O verso invertido ‘de assim magoar-te sem pesar havia’
também demonstra toda a confusão de espírito que estava dentro do poeta ao
construir o poema. No último terceto ‘Seria
a mão de Deus?!’, Augusto questiona a existência de Deus e o cristianismo.
E ao repetir o nome de Deus é como se ele estivesse chamando por Deus e perdido
diante dele, querendo uma resposta divina”.
O real fantástico
Ângela compara alguns dos sonetos do
poeta ao realismo fantástico de que os escritores Gabriel Garcia Márquez e José
Saramago são expoentes. “Ao lermos um poema como Queixas noturnas vemos que só o modernismo poderia traçar uma
imagem como essa, em que o real e o imaginário integram o mesmo plano. Esse
recurso pode se comparar ao realismo maravilhoso, em que o cerne é destruir o
limite entre real palpável e o real do outro ‘mundo’, que é a morte.”
Crítica chocante e expressionista
Em alguns sonetos de Augusto também é
possível constatar versos de uma crítica feroz e chocante. Ângela cita os poemas Gemidos de Arte e Os doentes. “A poesia de Augusto está sempre com uma linguagem que
expressa a realidade como ela é, difícil de ser enfrentada. Nos versos ‘E
o olho do estuprador se encha de bichos!’, no primeiro poema, ele
critica o estuprador, e em ‘Manchou de
opróbrios a alma do mazombo/ Cuspiu na cova do morubixaba!’,
no segundo, o poeta ataca os colonizadores”. Esses traços chocantes que Augusto se apodera em
sua poesia foram vistos, na década de 70, pelo crítico Anatol Rosenfeld, como
uma aproximação do expressionismo alemão. “O gosto pela deformação, a visão
subjetiva, forte, que não é a cópia fotográfica, mas a cópia de uma expressão,
tudo isso contribuiu para que Augusto fosse comparado ao movimento da pintura
alemão”, explica Ângela.
Gosto
popular
Apesar
dos termos científicos e filosóficos utilizados na obra de Augusto, a sua
poesia abre perspectiva para um gosto puramente popular. É o que explica Ângela
Bezerra de Castro. “Augusto tem poemas que são os mais
populares, que todo mundo sabe recitar. E ele se utiliza de elementos
cotidianos, banais. Um exemplo é o verso Toma
um fósforo. Acende teu cigarro, do poema Versos Íntimos, que é recitado por qualquer pessoa, seja ela
crítica ou não. Essa mesma poesia, que traz os versos O beijo, amigo, é a
véspera do escarro/ A mão que afaga é a mesma que apedreja também traz toda uma formulação de um ditado
popular que é ‘as aparecias enganam’”, diz.
Culpa e melancolia
As frequentes referências ao
sentimento de culpa, que aparecem de forma intensa e generalizada na obra do
poeta, sempre impressionaram o professor Chico Viana. “Ele se expressava de
modo que o poeta sozinho fosse o responsável por um crime universal e devesse,
por isso, pagar pelos pecados de toda a espécie”, explica.
De acordo com Chico, que teve
Augusto como objeto de sua tese de Doutorado, defendida em dezembro de 1992 na
Universidade Federal do Rio de Janeiro, a obra do paraibano “dissemina uma
melancolia profunda, com um sentimento de uma perda essencial, de um luto
persistente e definitivo que precipita o indivíduo, a natureza, o cosmo numa
espécie de abismo negro que suprime toda alegria”.
Ele esclarece que a sombra que
sempre aparece nos sonetos de Augusto não é senão ‘o rosto escuro de Narciso’,
a contraface de desespero que não permite ao contemplador ver a si mesmo. “Essa
sombra, que ele se dizia perseguido, espécie de negativo que a ele se antepunha
e lhe tomava o lugar, é o alterego tristonho do poeta, que fala no poema
inaugural e em muitos outros do livro”.
Chico destaca que Augusto dos Anjos é
um poeta que deve ser sempre estudado e analisado. “Augusto deve ser lido por
diversos prismas, cada um deles iluminando um ângulo novo da sua obra
romântica, barroca, simbolista e, ao mesmo tempo, moderna. Seus versos falam de
temores e anseios cruciais no ser humano, cujo maior desafio é conciliar a
porção animal com a aspiração de se elevar a espaços transcendentes”.
Ele entende que o poeta não chega a
uma síntese. “Mesmo porque, não sendo um místico nem um filósofo, ele não tem
essa função. A linguagem é sua matéria e seu horizonte. Seus poemas são,
basicamente, um testemunho do poder regenerador da arte. Só ela, conforme
escreve o poeta em Monólogo de uma Sombra,
é capaz de ‘esculpir’ a dor humana e transformar em planície amena a aspereza orográfica do mundo”.
A crença em um mundo
melhor
Para
o escritor, professor, membro do Caixa Baixa - grupo de jovens escritores
paraibanos – Jairo Cézar Soares, a poesia de Augusto dos Anjos não tem nada de
cientificista, ou puramente mórbida e pessimista. “Há muito mais, nessa estupenda obra do que a morte. Digo que a poesia
anjosiana é constatativa, descrente no homem atual, mas crente em um novo
homem, em um novo cosmo. Não sendo um discurso aporético, mas, de certa forma,
otimista em um novo mundo”.
Jairo vai além:
“Para mim, não existe poesia cientificista. O que Augusto fez foi usar termos
científicos ao lado de termos ordinários, cotidianos. Augusto é um poeta do
cotidiano. Ferreira Gullar afirma que Augusto recusou alturas e preferiu descer
ao subterrâneo. No lugar de pombas e garças, ele usou elementos como sapo,
urubu e lagartixa”.
“Observa-se,
nesse trecho final de Os Doentes, que
o vate vislumbra uma luz no fim do túnel. Uma esperança em um mundo melhor, um
cosmo novo. Isso é pessimismo? Eu não acho. Há sim um desconforto com as
mudanças que vieram com o século XX. Século que é considerado o que quebrou
mais paradigmas. E Augusto era testemunha desse caos, não apenas no seu
Engenho, mas universal. Ele era descrente porque o seu mundo estava
desmoronando”, explica Jairo.
Augusto: uma leitura que nunca termina
Gonzaga Rodrigues, jornalista há
anos dedicado à crônica, é um leitor de Augusto desde que o EU lhe caiu às mãos, no vazio escolar de
1950, deixado o colégio. “Comecei a ler nesse momento ainda sem rumo, de luto
do meu pai, e nunca terminei de ler, desde o
Monólogo de uma sombra ao Último
número recolhido na edição de Órris Soares. É uma leitura de mais de
sessenta anos que nunca termina”, ressalta.
“Não como leitura de Breviário –
explica Gonzaga - dos antigos padres, ou mesmo da Bíblia de todos os homens, em
busca de ensinamentos de vida e de salvação da alma. Mas por compulsão
estética, a única a meu sentir, que me liga à sobrenaturalidade”, recorda,
muito compenetrado, esse leitor cativo.
Estende-se mais, como se falasse
sozinho: “A estética aí mencionada é o outro reino, a salvação alcançada ainda
em vida com o ingresso do nosso “eu”, o “eu” de cada leitor, na transcendência
da poesia. Da arte. A arte que nos coloca na mesma mesa e no mesmo ponteiro de
relógio com Homero, o primeiro das referências civilizatórias do Ocidente, tão
imaterial que há dúvidas se ele precisou nascer. A suprema arte dispensou-o
dessa condição mortal que começa pelo nascimento”.
É com esse pensamento, com essa
abertura, que o presidente da Academia Paraibana de Letras (APL) enquadra
Augusto dos Anjos na galeria intemporal dos clássicos. “Como acontece com os
grandes autores, os que se tornam clássicos, perdeu-se a conta das edições do EU. Numa das linhas editoriais,
centrada no Rio de Janeiro, a partir da edição ‘princeps’ o livrinho de 1912
alcança a 48ª edição, através da Martins Fontes. Noutra linha, a José Olympio,
com o estudo de Ferreira Gullar e sob outro título, Toda a poesia de Augusto dos Anjos imprime a 3ª”.
Ele continua: “A nossa própria
Universidade edita o EU com a
indicação de 3ª. edição. Circularam e circulam outras versões no Brasil inteiro
sem vínculo a qualquer ordem ou sequência editorial. Significa dizer, portanto,
que a demanda indistinta, diversificada, culta ou popular pela poesia de
Augusto inviabiliza o registro regular do número de edições. Muita coisa fora
do índice catalográfico a que todo livro está obrigado”.
Gonzaga anuncia, então, a lembrança da Academia
Paraibana de Letras de incorporar-se aos 100 anos do EU recompondo o Memorial de Augusto dos Anjos, da APL, com apoio da
Secretaria Estadual de Educação e Cultura, em convênio renovado pelo secretário
Harrison Targino, além da reedição do EU
de 1920, organizada por Órris Soares, num momento em que havia se esgotado a 1ª
edição e a crítica literária mantinha-se confusa, como diz Ângela Bezerra de
Castro, espantada com o poeta, conforme a reação do acadêmico Medeiros de
Albuquerque.
“A reedição do EU
de 1920 é uma homenagem a Órris, senhor da iniciativa, organizador da edição
que soube respeitar a vontade do poeta ao selecionar os versos segundo os seus
padrões estéticos. São 56 poesias, às quais Órris acrescentou as produzidas
entre 1912 a
1914, com alguns sonetos deixados nos jornais da Paraíba que não desmereciam os
critérios do autor”, explica.
Matéria publicada no Correio das Artes.