domingo, 22 de maio de 2011

Fernando Pessoa e o símbolo da noite

Lays Rodrigues


O movimento de pessoas e de carros nas ruas é pouco, a luz que ao mesmo tempo ilumina e aquece já se foi, o silêncio da noite e o ambiente fantasmagórico começam a dar voz ao que ao longo do dia tinha sido silenciado, a sensação de vazio, angústia e descontentamento interior...
Cenário ideal para o surgimento de lamentações e dúvidas existenciais, o símbolo da noite no discurso poético encontra-se muitas vezes relacionado e envolvido às mágoas e às carências do eu-lírico. Tudo isto começou no Pré-Romantismo nos fins do século XVIII, em que a noite, misteriosa e sugestiva da morte, passou a ser vista como um espaço para o pranto.
Considerado por muitos críticos um poeta noturno, o escritor português Fernando Pessoa, que cultivou tanto a poesia quanto a prosa e foi um dos principais expoentes do Modernismo português, figura entre os poetas que utilizaram a imaginação e a criatividade para manifestar símbolos noturnos que expressam a vontade e o estado de espírito de forma plurissignificativa.
No conjunto de poemas intitulado “Cancioneiro”, o autor, que é destaque na criação de heterônomos (mais de 70 personagens), aparece ortônimo envolvendo o símbolo da noite a temas como solidão, infância, nostalgia, ocultismo e tédio, evidenciando certa ligação com o movimento literário simbolista.
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços/ E chama-me teu filho... eu sou um rei que voluntariamente abandonei/ O meu trono de sonhos e cansaços...” (trecho do poema Abdicação de Fernando Pessoa).
Segundo a doutoranda em Língua Portuguesa e autora da tese “O símbolo da noite no ‘Cancioneiro’ de Fernando Pessoa”, Mônica Império Simiscuka,“temas já antigos como a antecipação da morte, a capacidade regeneradora imposta pelo anúncio de um novo dia, os questionamentos acerca do mistério da existência e outros tantos são renovados pela sensação de vazio, tédio, insegurança e solidão peculiares no universo simbólico pessoano. O espaço noturno é revisitado de forma singular e com uma atitude melancólica que o tornam propício à ordenação dos dramas pessoais, às preocupações intimistas e extremadas e mesmo à abdicação existencial”.
Assim, baseado na tese, o amanhecer, que põe fim à escuridão, aparece nos poemas noturnos de Pessoa com uma carga negativa, na medida em que o dia só restaura o desespero e as mágoas individuais. “Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã - como nos desalegra!” (trecho do poema Hora Absurda, de Pessoa) Já a noite, com um aspecto positivo, aparece em paralelo com a morte, devido ao fato de ambas (noite e morte) serem transitórias diante da vida e porem fim às dores e às torturas da alma. “Com a noite tudo acaba” (fragmento do poema Um muro de nuvens densas, Pessoa).
O mundo dos sonhos também é recorrente nos poemas de Pessoa, e aparece como refúgio para realização dos desejos reprimidos, fundindo-se ao sujeito poético. “Se as esperanças do sujeito poético são malogradas pelo desengano doloroso, a evasão pelo sonho e as experiências oníricas lhe permitem cumprir em outro plano o que não se pode concretizar de fato, dando um alívio passageiro ao sofrimento do indivíduo, impotente diante do mistério da existência. Desta forma, o ambiente noturno pode simbolizar igualmente o engano aceito por livre-arbítrio, uma vez que, ainda sendo reduzida a nada e à morte, a vida real é preterida em relação às sensações experimentadas durante o sono”, continua Mônica Simiscuka.
            Sonho / Não sei quem sou neste momento, / Durmo sentindo-me. / Na hora calma/Meu pensamento esquece o pensamento/Minha alma não tem alma. / Se existo é um erro eu o saber/ Se acordo parece que erro/ Sinto que não sei. / Nada quero nem tenho nem recordo./ Não tenho ser nem lei. / Lapso da consciência entre ilusões/ Fantasmas me limitam e me contêm./Dorme insciente de alheios corações/ Coração de ninguém.” (PESSOA, Sonho, não sei quem sou)
            Ainda para ela, “O símbolo da noite e seus derivados são tratados dentro da lógica poética pessoana, como um adiamento da aparição e da constatação da única verdade que se pode apreender frente aos mistérios da existência: que eles são intangíveis. A busca simbólica dessa verdade é incessante, mas vã. Buscá-la continuamente, porém, é menos doloroso do que saber a verdade inexorável sobre ela”.

Documentário sobre Radegundis Feitosa é lançado na PB

Um músico que inspirou gerações e revitalizou o cenário de música instrumental da Paraíba. A trajetória de vida do trombonista itaporanguense Radegundis Feitosa, falecido no ano passado, é contada por meio de um documentário lançado neste último sábado, 14, no Cine Bangüê do Espaço Cultural da Paraíba.

Trilhando um longo caminho acadêmico, Radegundis era Doutor em trombone performance pela “The Catholic University of América” de Washington, EUA (1991), Mestre pela “The Juilliard School” de Nova York, EUA (1987) e Bacharel pela Universidade Federal da Paraíba(1983), onde lecionava. O músico também era o trombone principal da Orquestra Sinfônica da Paraíba e trombonista do BRASSIL (Grupo de Metais e percussão).

Contando com o depoimento de músicos importantes do cenário paraibano atual, além de um extenso material de arquivo, o documentário filmado em longa-metragem foi produzido pela TV UFPB com o apoio do Núcleo de Produção Digital da Paraíba, e dirigido por Arthur Lins e Niu Batista.

Segundo Arthur Lins, a idéia de fazer um documentário sobre o músico surgiu após seu falecimento, em julho de 2010. “A diretora da TV UFPB, Sandra Moura, me chamou junto a equipe, e viu que a gente precisava fazer uma espécie de homenagem a Radegundis, numa obra que sintetizasse sua trajetória”.

Ele afirma que ao todo foram três meses de pesquisa e captação. “Durante três meses, pesquisamos quem foi o mestre Radegundis e chamamos Carlos Anísio, maestro paraibano, e o filho de Radegundis, Radegundis Tavares Filho, que nos indicaram músicos excepcionais que tinham ligações afetivas com o personagem”.

O documentário, além de retratar o destaque alcançado pelo músico como um dos melhores trombonistas do mundo, mostra o seu papel enquanto educador musical na Universidade Federal da Paraíba, e incentivador de jovens músicos do interior.

“Radegundis sintetiza a trajetória de várias pessoas que saem do interior e se destacam no mundo, mantendo os seus vínculos com a cidade natal ou com a região em que vivem. Existe um poder de sedução na trajetória dele enquanto pessoa que é muito relevante contar para ver se a gente consegue repercutir esse poder de sedução que ele já exercia nos jovens músicos”, destaca Arthur Lins.

O filme, que terá uma tiragem de duas mil cópias, será legendado em inglês e espanhol para ser distribuído em conservatórios e escolas de música. Além disso, em breve o documentário será exibido de forma inédita na TV UFPB.

Lays Rodrigues

domingo, 20 de março de 2011

Crítica O Poderoso Chefão


Baseado no livro de Mario Puzzo, The Godfather, e dirigido por Francis Ford Coppola, O Poderoso Chefão é considerado por muitos críticos um dos melhores filmes de todos os tempos. O primeiro filme da trilogia, de 1973, retrata de maneira fria e crua como agia a máfia siciliana em Nova York nos anos 40. Quem interpreta o grande chefe de família e das máfias, Don Vito Corleone, é Marlon Brando, num papel que lhe rendeu o Oscar de melhor ator. Corleone é também o “padrinho”, aquele que atende a favores de diversas pessoas, mesmo que o “favor” resulte no assassinato de outros indivíduos.

No começo da trama, já somos levados a deslumbrar da maravilhosa técnica e fotografia características do filme, a câmera começa dando foco no rosto de Bonasera (Salvatore Corsitto), que pede a Corleone a morte de dois jovens que espancaram sua filha. Lentamente, a câmera faz um travelling do rosto do ator até se enquadrar num plano de costas em Corleone, que ouve atentamente e responde ao apadrinhado poucos minutos depois, numa voz de rouquidão e sutileza característica. Fora do escritório, acontece a festa de casamento de Connie (Talia Shire), filha de Corleone, com muita música, dança e comida típicos de uma celebração italiana. É neste ambiente de festividade que vamos conhecendo os outros filhos do chefão, Sonny (James Caan), o suposto sucessor do pai, Tom Hagen (Robert Duvall), o advogado da família; Fredo (John Cazale), filho mais velho e também envolvido na máfia; e Michael (Al Pacino), que, diferentemente dos demais, é um homem comum, não se interessa pelos negócios do pai e está acompanhado da namorada Kay Adams (Diane Keaton).

A rotina da família é posta em xeque quando outras famílias de mafiosos vão pedir apoio financeiro e político para o tráfico de narcóticos a Corleone, e este lhes nega. O que dá início a uma série de ataques e assassinatos contra ele e sua família para que o mesmo mude de idéia. É neste cenário de guerra que, paradoxalmente, Michael Corleone se vê no papel de assumir o lugar do pai, e a trama segue o seu enredo.

Com relação à parte técnica, as diversas tomadas de câmera em vários momentos do filme resultam em planos cinematográficos cheios de significado. Quando, por exemplo, poucos segundos antes de assumir a liderança do pai, a câmera realiza um travelling focalizando, num plano contra-plongée (de baixo para cima), o personagem de Al Pacino numa conversa com os demais irmãos, inferindo a suposta autoridade do personagem diante deles. O plano sequência na mansão do produtor de cinema, que por não atender um pedido de Corleone, é surpreendido ao acordar com a cabeça cortada de seu cavalo preferido debaixo de seus lençóis; e o plano conjunto (total) e plongée (de cima para baixo) na barraca de frutas, onde ocorre o atentado contra Corleone, também são grandes exemplos da variedade de planos pensados do filme. A fotografia de Gordon Willis, intercalando um ambiente sombrio nas conversas mais “pesadas” dos personagens, e com um cenário, em várias partes da trama, urbano, também contribuem fundamentalmente para enquadrar o clima de violência que Coppola queria. Sem falar na trilha sonora, de Nino Rota, grande contribuinte de Fellini, que combina perfeitamente as músicas de acordo com cada momento do filme. Desde o casamento, com uma música mais animada e empolgante, a uma trilha mais triste e ao mesmo tempo sutil na estada de Michael na Sicília, até uma que dá um clima de completa tensão e suspense, como na hora da maioria dos assassinatos e ainda no plano sequência na mansão do produtor de cinema.

Nota-se também uma simbologia utilizada pelos mafiosos ao longo do filme. Além dos diálogos bem sacados, há momentos em que é preciso mergulhar no universo de cada personagem para poder entender algumas situações, como por exemplo, quando Sonny recebe um peixe morto embalado para simbolizar que o capanga Luca Brasi “virou comida de peixe”, ou seja, morreu; ou quando Corleone solta a frase que mais tarde se tornaria uma das mais reconhecidas do cinema, “Vou fazer uma proposta que ele não irá recusar”, inferindo que colocará uma arma na cabeça de um indivíduo. Além destas simbologias, percebe-se certo prezo de Corleone e seus capangas pelos valores tradicionais da família, apesar de toda a violência gerada por eles. Na cena em que um dos escoltas do chefão, após atirar em um suposto traidor que está num automóvel, solta a máxima “Leave the gun, take the cannoli” (em português: Deixe a arma, pegue o cannoli) para o amigo, ele deixa explicito que mesmo cometendo a imprudência de um crime, o capanga se sente na necessidade de levar consigo o cannoli (sobremesa italiana) que a esposa havia preparado anteriormente, demonstrando reconhecimento e respeito à vida a dois com a companheira.

As performances dos personagens escolhidos por Coppola também são um show à parte. Alem das interpretações magistrais de James Caan e Robert Duvall, o ator Marlon Brando tem uma excelente atuação no filme, o modo sutil como Corleone, seu personagem, trata os assuntos da família, intercalando uma postura autoritária a uma tranquilidade e segurança, dão um ar de experiência admirável ao personagem. Bem como Al Pacino, que consegue transparecer perfeitamente a mudança ocorrida em Michael ao longo da trama, no começo com uma postura de homem comum e benevolente, e após entrar no mundo da máfia, se comportando agressivamente e metodicamente. Os diálogos inicial e final com Kay Adams, a namorada e futura esposa, é um exemplo disso. Na festa de casamento da irmã, Michael conta timidamente a Kay sobre os crimes cometidos por sua família, sem demonstrar nenhum interesse por este mundo, e nos segundos finais do filme, os dois aparecem se desentendendo devido ao comportamento autoritário e violento do companheiro, que se tornou o “Poderoso Chefão” da trama.

Assim, possuindo narração, técnica e interpretações impecáveis, além de um grande número de cenas marcantes, O Poderoso Chefão consegue mostrar de maneira realista, cruel, e ao mesmo tempo magistral, a ambientação da máfia siciliana dos anos 40, o que lhe rendeu e rende até hoje, a referência de ser uma lição de cinema para aqueles que se interessam pela área cinematográfica.

Lays Rodrigues.