
Baseado no livro de Mario Puzzo, The Godfather, e dirigido por Francis Ford Coppola, O Poderoso Chefão é considerado por muitos críticos um dos melhores filmes de todos os tempos. O primeiro filme da trilogia, de 1973, retrata de maneira fria e crua como agia a máfia siciliana
No começo da trama, já somos levados a deslumbrar da maravilhosa técnica e fotografia características do filme, a câmera começa dando foco no rosto de Bonasera (Salvatore Corsitto), que pede a Corleone a morte de dois jovens que espancaram sua filha. Lentamente, a câmera faz um travelling do rosto do ator até se enquadrar num plano de costas em Corleone, que ouve atentamente e responde ao apadrinhado poucos minutos depois, numa voz de rouquidão e sutileza característica. Fora do escritório, acontece a festa de casamento de Connie (Talia Shire), filha de Corleone, com muita música, dança e comida típicos de uma celebração italiana. É neste ambiente de festividade que vamos conhecendo os outros filhos do chefão, Sonny (James Caan), o suposto sucessor do pai, Tom Hagen (Robert Duvall), o advogado da família; Fredo (John Cazale), filho mais velho e também envolvido na máfia; e Michael (Al Pacino), que, diferentemente dos demais, é um homem comum, não se interessa pelos negócios do pai e está acompanhado da namorada Kay Adams (Diane Keaton).
A rotina da família é posta em xeque quando outras famílias de mafiosos vão pedir apoio financeiro e político para o tráfico de narcóticos a Corleone, e este lhes nega. O que dá início a uma série de ataques e assassinatos contra ele e sua família para que o mesmo mude de idéia. É neste cenário de guerra que, paradoxalmente, Michael Corleone se vê no papel de assumir o lugar do pai, e a trama segue o seu enredo.
Com relação à parte técnica, as diversas tomadas de câmera em vários momentos do filme resultam em planos cinematográficos cheios de significado. Quando, por exemplo, poucos segundos antes de assumir a liderança do pai, a câmera realiza um travelling focalizando, num plano contra-plongée (de baixo para cima), o personagem de Al Pacino numa conversa com os demais irmãos, inferindo a suposta autoridade do personagem diante deles. O plano sequência na mansão do produtor de cinema, que por não atender um pedido de Corleone, é surpreendido ao acordar com a cabeça cortada de seu cavalo preferido debaixo de seus lençóis; e o plano conjunto (total) e plongée (de cima para baixo) na barraca de frutas, onde ocorre o atentado contra Corleone, também são grandes exemplos da variedade de planos pensados do filme. A fotografia de Gordon Willis, intercalando um ambiente sombrio nas conversas mais “pesadas” dos personagens, e com um cenário, em várias partes da trama, urbano, também contribuem fundamentalmente para enquadrar o clima de violência que Coppola queria. Sem falar na trilha sonora, de Nino Rota, grande contribuinte de Fellini, que combina perfeitamente as músicas de acordo com cada momento do filme. Desde o casamento, com uma música mais animada e empolgante, a uma trilha mais triste e ao mesmo tempo sutil na estada de Michael na Sicília, até uma que dá um clima de completa tensão e suspense, como na hora da maioria dos assassinatos e ainda no plano sequência na mansão do produtor de cinema.
Nota-se também uma simbologia utilizada pelos mafiosos ao longo do filme. Além dos diálogos bem sacados, há momentos em que é preciso mergulhar no universo de cada personagem para poder entender algumas situações, como por exemplo, quando Sonny recebe um peixe morto embalado para simbolizar que o capanga Luca Brasi “virou comida de peixe”, ou seja, morreu; ou quando Corleone solta a frase que mais tarde se tornaria uma das mais reconhecidas do cinema, “Vou fazer uma proposta que ele não irá recusar”, inferindo que colocará uma arma na cabeça de um indivíduo. Além destas simbologias, percebe-se certo prezo de Corleone e seus capangas pelos valores tradicionais da família, apesar de toda a violência gerada por eles. Na cena em que um dos escoltas do chefão, após atirar em um suposto traidor que está num automóvel, solta a máxima “Leave the gun, take the cannoli” (em português: Deixe a arma, pegue o cannoli) para o amigo, ele deixa explicito que mesmo cometendo a imprudência de um crime, o capanga se sente na necessidade de levar consigo o cannoli (sobremesa italiana) que a esposa havia preparado anteriormente, demonstrando reconhecimento e respeito à vida a dois com a companheira.
As performances dos personagens escolhidos por Coppola também são um show à parte. Alem das interpretações magistrais de James Caan e Robert Duvall, o ator Marlon Brando tem uma excelente atuação no filme, o modo sutil como Corleone, seu personagem, trata os assuntos da família, intercalando uma postura autoritária a uma tranquilidade e segurança, dão um ar de experiência admirável ao personagem. Bem como Al Pacino, que consegue transparecer perfeitamente a mudança ocorrida em Michael ao longo da trama, no começo com uma postura de homem comum e benevolente, e após entrar no mundo da máfia, se comportando agressivamente e metodicamente. Os diálogos inicial e final com Kay Adams, a namorada e futura esposa, é um exemplo disso. Na festa de casamento da irmã, Michael conta timidamente a Kay sobre os crimes cometidos por sua família, sem demonstrar nenhum interesse por este mundo, e nos segundos finais do filme, os dois aparecem se desentendendo devido ao comportamento autoritário e violento do companheiro, que se tornou o “Poderoso Chefão” da trama.
Assim, possuindo narração, técnica e interpretações impecáveis, além de um grande número de cenas marcantes, O Poderoso Chefão consegue mostrar de maneira realista, cruel, e ao mesmo tempo magistral, a ambientação da máfia siciliana dos anos 40, o que lhe rendeu e rende até hoje, a referência de ser uma lição de cinema para aqueles que se interessam pela área cinematográfica.
Lays Rodrigues.